Hoje foi um dia especial. Um dia solene. Hoje decidi abrir a minha caixa de areia. Decidi visitar o meu mundo. Decidi passear no meu bosque. Decidi recolher-me na minha clareira. Decidi ir à minha sepultura. Hoje fui enterrar mais um bocado de mim. Convicto do que fazia, cavei com a certeza do quão fundo tinha que chegar. E foi lá em baixo que depositei este pedaço de vida morta. Fechei de novo a campa. Pensei-a e reflecti-a um pouco. Ofereci-lhe uma rosa negra viva cuidadosamente espetada sobre a terra ainda húmida. E disse-lhe adeus.
Obrigado às duas pessoas que me trouxeram até aqui. Que me esticaram o braço desde o cimo da minha falésia para que eu me içasse a partir do meu areal. E que não me deixaram cair.
Este é o meu Atlas.O meu Atlas Deus que carrega o meu mundo. O meu Atlas que sofre por sonhos. O meu Atlas que, mesmo sofrendo por vezes, é feliz por sonhar.
sábado, maio 12, 2007
domingo, maio 06, 2007
Cruzamento
Não há dia que eu não acorde e não me depare com este dilema na minha cabeça. Vejo-me numa estrada imensa que vai em frente. A dada altura sinto e sei que tenho que escolher um de dois caminhos. Ambos vão em frente, embora um deles recorra a um pequeno desvio inicial. O problema é que se estendem os dois demasiadamente para o infinito, impossibilitando-me de ver todas as suas pernas e as suas paragens finais. Há dias em que penso seguir um, outros em que quero fazer o contrário.
Já pedi ajuda a quem me poderia ajudar. Só vejo bocas a abrirem e a articularem silêncio. Aquele silêncio irritante e brutal. Só vejo corpos a tomarem a iniciativa de virarem as costas. Costas enormes e cruelmente opacas. Talvez estas desajudas sejam as ajudas de que eu estou à procura. Talvez o problema seja só o eu não acreditar nelas e pensar que um dia ainda me vai cair um sinal de sentido obrigatório para o outro lado.
Simplesmente não sei o que fazer. Simplesmente não sei por onde ir. E o cruzamento está cada vez mais perto. É já ali ao virar do dia.
Já pedi ajuda a quem me poderia ajudar. Só vejo bocas a abrirem e a articularem silêncio. Aquele silêncio irritante e brutal. Só vejo corpos a tomarem a iniciativa de virarem as costas. Costas enormes e cruelmente opacas. Talvez estas desajudas sejam as ajudas de que eu estou à procura. Talvez o problema seja só o eu não acreditar nelas e pensar que um dia ainda me vai cair um sinal de sentido obrigatório para o outro lado.
Simplesmente não sei o que fazer. Simplesmente não sei por onde ir. E o cruzamento está cada vez mais perto. É já ali ao virar do dia.
quinta-feira, maio 03, 2007
Azia
Quem disse que a vida era difícil? Bah! A vida é fácil. Muito fácil até. Tudo o que acontece é lógico. Tudo segue uma ordem. As pessoas fazem e reagem em resposta a estímulos: o estímulo A, naquela pessoa, dá sempre a acção B. As pessoas são básicas. São basicamente ciúmes, raiva e inveja. E a espaços mais largos, bondosas, cooperativas, altruístas. E é isto que a vida tem de engraçado: procurar olhar para adivinhar o que vem a seguir. É curioso olhar à volta e ver que 2+2 são sempre 4. É delicioso ver que a vida é perfeita como a matemática. Acreditem, esta abordagem quase nunca falha.
E quase nunca porquê? A vida só é difícil para quem não quer acreditar na sua facilidade (o pior cego é aquele que não quer ver). Está lá sempre tudo. Nada nos devia surpreender. Porque existe sempre alguma peça por estrear atrás de uma cortina de um palco. É só puxar a ponta e espreitar. Não querem estragar a surpresa? Tudo bem. Mas não refilem depois. Limitem-se a comer... e calar.
E quase nunca porquê? A vida só é difícil para quem não quer acreditar na sua facilidade (o pior cego é aquele que não quer ver). Está lá sempre tudo. Nada nos devia surpreender. Porque existe sempre alguma peça por estrear atrás de uma cortina de um palco. É só puxar a ponta e espreitar. Não querem estragar a surpresa? Tudo bem. Mas não refilem depois. Limitem-se a comer... e calar.
segunda-feira, abril 30, 2007
Para quem enfiar o barrete...
"As pessoas que nos amam têm que nos conhecer um pouco melhor que nós próprios."
Eduardo Sá
É por isso que é delas que esperamos, nos bons e nos maus momentos, acima de tudo, compreensão.
Eduardo Sá
É por isso que é delas que esperamos, nos bons e nos maus momentos, acima de tudo, compreensão.
domingo, abril 29, 2007
Dice's Boy
A partir de agora começa o jogo a sério. O meu jogo. E no meu jogo joga-se no meu tabuleiro, com as minhas peças e com os meus dados. Com as minhas regras! Eu é que sei quem joga e quando joga. Eu é que sei quem ganha. E sei que não vou ser eu a ganhar. Nem eu nem outro alguém. No meu jogo ninguém ganha. Todos perdem. Porque o jogo é meu e é assim que eu quero.
Nazarena
Todos os dias te levantas de manhã. Bem cedinho. Sabes sempre o que vais fazer durante todas as horas que vais ter pela frente. Sais convicta e hesitante. Queres mas tens medo. Desces essas ruas estreitas e de piso irregular. Com o azul ao fundo. As tuas roupas negras escuras, acompanhadas pelos 1001 folhos das tuas largas saias, cruzam-se com ingleses, espanhóis e franceses. Estrangeiros para o país e para ti. Pessoas que não te percebem. Porque não vivem a tua vida.
Caminhas até ao areal. Ele é talvez a tua primeira casa. É nele que te sentas religiosamente há anos. Vês os homens vir da faina, em barcos velhos mas que ainda flutuam. Que trazem o alimento e a saudade de muitas famílias. Mas o teu barco não voltou. Não voltou desde que saiu naquele breve momento que tão bem te lembras. Sabes que não virá. Mas mesmo assim esperas por ele. Não te cansas de o fazer só porque queres que ele venha. Que te traga o teu peixe e o teu conforto... Isso nunca irá acontecer. Foi assim que as ondas do mar quiseram. Estava escrito a fogo na água que consegues ver até ao horizonte.
Regressas. Já de noite. Amanhã sabes o que farás. De novo. E será sempre assim. Até que um dia tu vás. E também não voltes.
Caminhas até ao areal. Ele é talvez a tua primeira casa. É nele que te sentas religiosamente há anos. Vês os homens vir da faina, em barcos velhos mas que ainda flutuam. Que trazem o alimento e a saudade de muitas famílias. Mas o teu barco não voltou. Não voltou desde que saiu naquele breve momento que tão bem te lembras. Sabes que não virá. Mas mesmo assim esperas por ele. Não te cansas de o fazer só porque queres que ele venha. Que te traga o teu peixe e o teu conforto... Isso nunca irá acontecer. Foi assim que as ondas do mar quiseram. Estava escrito a fogo na água que consegues ver até ao horizonte.
Regressas. Já de noite. Amanhã sabes o que farás. De novo. E será sempre assim. Até que um dia tu vás. E também não voltes.
quinta-feira, abril 26, 2007
Prioridades
Cairia o país se o primeiro-ministro tivesse faltado a um exame do seu curso para ir plantar uma árvore. Só por achar que esse acto lhe serviria melhor para a sua futura função de ministro do Ambiente que o mero acto de preencher uma folha de papel para lhe dar habilitações. Ainda bem que isso não aconteceu.
terça-feira, abril 24, 2007
Par de pés
O corpo humano foi feito na perfeição. Basta para isso ver a razão para que foi feito com dois pés... Eles formam um par, um esquerdo e um direito, para que na areia molhada da praia caminhem alternadamente, respondendo e discutindo saudavelmente um com o outro.
Ao olharmos para uma caminhada gravada no areal, sabemos que a seguir a um pé direito virá um esquerdo. E vice-versa. Uma grande depressão encimada por outras cinco mais pequenas pedindo a resposta do seu inverso. Direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, ...
Faria sentido ver um só pé direito a deixar perguntas soltas? E as respostas do esquerdo?
Faria sentido ver esse mesmo pé direito a tentar responder às suas próprias perguntas, pisando o trilho de ambos os lados? E as respostas do esquerdo?
Todos os pés merecem um par. Por isso é que fomos feitos com dois.
Ao olharmos para uma caminhada gravada no areal, sabemos que a seguir a um pé direito virá um esquerdo. E vice-versa. Uma grande depressão encimada por outras cinco mais pequenas pedindo a resposta do seu inverso. Direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, ...
Faria sentido ver um só pé direito a deixar perguntas soltas? E as respostas do esquerdo?
Faria sentido ver esse mesmo pé direito a tentar responder às suas próprias perguntas, pisando o trilho de ambos os lados? E as respostas do esquerdo?
Todos os pés merecem um par. Por isso é que fomos feitos com dois.
domingo, abril 22, 2007
Pureza
Não há nada mais puro que a mera junção da água com o sal. A forma como ambas se complementam e os motivos que levam à sua união são simplesmente formidáveis. É delicioso vê-las caminhar lado a lado, como um só. Como um que são na realidade. Admirar como o conjunto formado desliza de modo suave por cima da imensa esfera que vê e vive tudo neste mundo. Como turva a bola que muitas vezes devia e merecia ser opaca. Mas a água salgada faz questão de a rasgar de um lado ao outro. Até à beira do abismo.
Aí hesita. Protege-se. Resguarda-se. Ganha força. E depois... cai. Rola como seixos ao sabor das vagas de mar. Resvala por fendas, proeminências, desejos, promessas. Fogo. Apaga-o ou aviva-o. Dá-lhe expressão máxima.
E depois o fim. Um mergulho no infinito. O despedaçar vil numa qualquer superfície. O separar da união perfeita. Ou então... Ou então o aninhar numa mão quente.
Aí hesita. Protege-se. Resguarda-se. Ganha força. E depois... cai. Rola como seixos ao sabor das vagas de mar. Resvala por fendas, proeminências, desejos, promessas. Fogo. Apaga-o ou aviva-o. Dá-lhe expressão máxima.
E depois o fim. Um mergulho no infinito. O despedaçar vil numa qualquer superfície. O separar da união perfeita. Ou então... Ou então o aninhar numa mão quente.
segunda-feira, abril 02, 2007
Peixe
Em vez de teres usado a tua própria cabeça, deixaste que fossem os outros a usar o teu corpo. E eu que pensava que subir na vertical era mais fácil que na horizontal...
Já o ditado o diz: pela boca morre o peixe.
Já o ditado o diz: pela boca morre o peixe.
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