quarta-feira, novembro 21, 2007

Pequenas frases

Há pequenas frases como "E tu?" que ficam sempre bem. São questões de educação, pelo menos. De respeito, reconhecimento, preocupação e carinho, na mais pura essência da sua utilização. E é por serem coisas tão simples que a sua ausência é tão monstruosa. Não custa praticamente nada. Custa somente dois dedos de testa. E o retorno disso é tremendamente grande. Por vezes inimaginável... O que vale é que quase todas as portas que atravessamos abrem para os dois lados. Pode não ser tão fácil como entrar, mas dá quase sempre para sair.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Zombie

Não te vi a ir embora, embora saiba que foste. Sei que dormias debaixo do teu cobertor de ervas verdes, vivas. Sob a tua almofada branca de mármore, sofridamente rabiscada a preto. Eu sei. Eu sei que estavas lá. Ao meu lado. Na tua cama. No local onde descansavas os teus incólumes pedaços. Pedaços plenos de vida, cobertos por sôfregas cores em mil milagres.
Eu sabia que estavas lá. Por isso não podias. Não podias ser tu. Não eras tu, aquele ser vivo morto. Aquela sombra de gente, húmida, podre, de roupas andrajosas e movimentos atáxicos mas decididos. Não eras tu. Não podias ser tu. Não queria que fosses tu... Mas eras.
Eras deveras tu. Reconhecia-te nos mais pequenos pormenores que ainda ousavam sobreviver ao tempo. Estavas como sempre o teu feitio dizia que devias estar. Ciente de ti e das tuas capacidades. E era com essas crenças que avançavas sem qualquer tipo de temor. Com um objectivo. Em direcção a um alvo. Muito específico.
Os canos serrados tinham-te ao alcance. E não hesitaram. A primeira nuvem de chumbos levou-te uma metade completa da face. Tirou-te a visão e cegaste aí por completo, como se por alguma ligação misteriosa as pequenas esferas tivessem viajado também para o outro olho. Tirou-te o sabor. O sabor que agora seria do teu próprio sangue. Seco, coagulado. Mas sangue. Tirou-te o olfacto com que cheirarias o perigo como era teu hábito.
Mesmo com a cara completamente exposta, seguiste impávida. A segunda rajada foi-te menos generosa. A tua anca voou sem direcção, arrancando um enorme pedaço da pouca carne que ainda sustinha. Caíste como um cepo seco e oco. Rodaste ligeiramente no ar. Esticaste o braço para alcançar um apoio que nunca existiu. Aterraste e levantaste um monte de poeira que te cegou mais, se tal fosse ainda possível. Mas não era isso que te ia deter.
Arrastavas-te agora quase com os vasos esvaídos de dignidade. Mas não de perseverança. Demoraste, mas chegaste aos seus pés. Percebi que reconhecias aquelas solas. Bem demais. Mas isso não contava. Um dos pés prendeu-te a mão que o tentava abraçar. Olhaste para cima. Chorarias se conseguisses. Se tivesses força para o fazer. Pediste algo sabendo de antemão a resposta. A resposta que veio na ponta da arma, agora flectida para baixo. Eu não quis ver. Mas ouvi. Urraste no silêncio do teu interior. Bradaste já sem ar nos pulmões. Uivaste pela última vez... outra vez.
Quando voltei a voltar-me para ti, acedi a aproximar-me. Eu sabia o que ia ver. A tua mão escrita pelo sapato que te pulverizou os ossos. O crânio incompleto, vazio de tudo e cheio de nada. Eclipsado de esperança. A perna ainda presa a um tendão persistente e velho. Como querendo não se perder do conjunto que já não existia. E lá estava ele. O sufoco do último sopro. Do derradeiro impulso. Um buraco negro. Profundo. Trespassante. De um lado ao outro. Nas costas. Por trás do coração. Que desaparecera por completo. Em cinzas.
Foi por isto que te reergueste? Para que te ferissem de morte o coração, pelas tuas costas? Eu sei que não era o que querias. No meu pensamento pinto a tua cara que agora beija o chão. Não podia ser mais expressiva a sua ausência de expressão. Nem um zombie merece acabar assim.

terça-feira, novembro 13, 2007

Papa

Ser mais papista que o próprio papa quase nunca dá bom resultado. É péssimo quando começamos a cair nas nossas próprias convicções, a contradizer-nos e humilharmo-nos, a querer ser mais do que aquilo que somos. O nosso ego é feito à medida daquilo para que somos capazes e não estica incessantemente de acordo com as ambições que temos ou com as ambições que queremos fazer os outros pensar que possuímos.
Tudo piora quando há muitas coisas a subir-nos à cabeça. E não é sangue nem ideias luminosas. São comportamentos, pastas, estatutos, cargos, posições, vícios. Quando se pensa que se está em cima, tudo cá em baixo é pequeno. Pode-se assumir uma posição arrogante e falar como bem se entende porque no topo ninguém nos toca. A nossa pequenez é esquecida porque andamos sobre andas. A humildade e o bom-senso são para quem sempre os utilizou e nunca foi a lado nenhum e não para os que nunca deles fizeram uso e chegaram a muitos lugares. O como para isso não interessa. Interessa é estar lá. Interessa é impor o que achamos a ferro e fogo. Talvez nem a ferro e fogo. Porque a resistência dos vermes que nos admiram do nosso incólume cume é suposto não existir. É suposto vergarem-se perante tal poder. Submissos. Calados. Inexistentes.

Queriam, não queriam?

sábado, novembro 10, 2007

Conversas

Uma conversa estúpida feita por uma pessoa inteligente é tão ou mais louvável e agradável que uma conversa inteligente feita por uma pessoa estúpida.

sábado, novembro 03, 2007

Nada

Um cargueiro. É exactamente isso que tu és. Transportas mercadorias de um lado para outro. Entre continentes. Entre países. Entre cidades. Entre pessoas. Mercadorias que muitas vezes desconheces. Caixas cujo conteúdo ignoras. Bom ou mau, não é isso que te interessa. É o teu trabalho e sabes que o tens que fazer. De um lado para outro.
Como tudo, há portos e portos. Hoje chegaste cá. Chegaste a este sítio. A este sítio que eu acho que conheço e que tão estranho é para ti. Não me peças para que te explique alguma coisa. Eu percebo mas é-me impossível passá-lo a outros. Eu sei que não te sentes acolhido. Lançaste amarras como em outros lugares mas aqui elas não ficaram presas. Lançaste-as e a doca fugiu. Fugiu até que te queira apanhar. Até que ela tome essa decisão. Aqui é ela que manda. É ela que agarra quando quer, para largar quando nós menos quisermos. Quer queiras, quer não queiras... Aqui estarás sempre preso. Estarás preso a coisa nenhuma. A nada. Estarás preso ao nada.

terça-feira, outubro 30, 2007

Livro aberto

Os livros são para serem abertos e lidos. Certo. Mas há livros que não devem ser demasiado abertos nem demasiado lidos. Há livros que, invariavelmente, vão sofrer de lombadas dissecadas e de páginas deturpadas. Há livros que, quando demasiado expostos, tenderão sempre a verem-lhes impingidas frases, personagens, diálogos, bocas e outros tantos que tais, que nada têm em relação com a narrativa original. A burrice e a teimosia de ver (ou de mostrar) as entranhas mais recônditas de um monte de folhas de papel raramente dão bom resultado. A transparência e a honestidade de uma obra literária só fazem com que se torne mais vulnerável e sensível a tudo o que de bom existe à sua volta.

sábado, outubro 27, 2007

Irrita-me...

Irrita-me ter vontade de escrever. Irrita-me não conseguir escrever. Irritam-me a hipocrisia e a arrogância. Irrita-me o egoísmo. Irrita-me o altruísmo. Irrita-me a teimosia. Principalmente a infundada. Irritam-me os benfiquistas. Irritam-me ainda mais os sportinguistas. Irrita-me perder. Irrita-me ganhar (sempre). Irrita-me não dar o meu melhor. Irrita-me os outros não darem o seu melhor. Irritam-me o sol e o calor. Irrita-me a praia. Irrita-me a areia. Irrita-me o sal do mar no meu corpo. Irrita-me a falta de frontalidade. Irrita-me a traição. Irrita-me o desprezo. Irrita-me a ausência de integridade. Irritas-me tu. Irrita-me a ostentação. Irrita-me a cobardia. Irrita-me ele. Irrita-me a vida. Irrita-me a morte. Irrita-me a falta de tempo. Irrita-me o excesso de tempo. Irrita-me ficar à espera. Irrita-me fazer esperar. Irritam-me os alemães, os espanhóis e os norte-americanos. Irritam-me os roubos. Irrita-me a imperfeição. Irrita-me a incapacidade. Irrita-me a desarrumação. Irrita-me a falta de lógica. Irrita-me a desorganização. Irritam-me sapatos de vela com meias brancas. Irritam-me as meias brancas. Irritam-me camisolas de lã. Irrita-me não ser feio. Irrita-me não ser bonito. Irrita-me faltarem peças a um puzzle. Irrita-me o esquecimento. Irrita-me a relatividade. Irrita-me a incoerência. Irrita-me o barulho. Irrita-me o silêncio prolongado. Irrita-me uma nota desafinada. Irrita-me uma música demasiado alegre. Irrita-me um disco riscado. Irritam-me os violinos. Irrita-me dizerem que disse o que não disse. Irrita-me gostar. Irrita-me ter saudades. Irritam-me os Yorkshire Terrier. Irrita-me cair. Irrita-me não me conseguir levantar. Irrita-me não ter uma mão que me ajude. Irritam-me sussurros à minha frente. Irrita-me uma mousse de chocolate de plástico. Irrita-me o leite. Irritam-me as iscas. Irrita-me não pescar nada. Irrita-me não perceber. Irrita-me não saber. Irrita-me saber de mais. Irrita-me trocar os planos. Irrita-me dormir. Irrita-me perder o comboio. Irrita-me uma caneta não escrever. Irrita-me gastar dinheiro. Irrita-me não ter dinheiro para gastar. Irrita-me o passado. Irrita-me o presente. Talvez me irrite o futuro. Talvez até não me irrite. Irrita-me que alguém não tenha lido isto. Irrita-me que alguém tenha começado e não tenha acabado. Irrita-me que alguém tenha tido paciência para chegar ao fim. Irrita-me irritar-me.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Mal parido

Quando as coisas começam mal não há bom futuro que se preveja... Perspectivas? Duvido... Se há coisa que não mente são os olhos e esses já estão a falar muito. A dizer demais em comparação com a fala. Correcção? Talvez... Pouco do que existe é irreparável. Veremos se este barco tem casco suficientemente robusto para aguentar com as vagas. Pequenas e grandes. Mas todas demasiado fortes e contraditórias.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Decisões

A vida é feita, invariavelmente, de decisões que temos que tomar. Decisões que temos mas que não queremos assumir. Decisões que, mesmo tendo que ser encaradas, não o são simplesmente porque nós não queremos. E isso irrita-me.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Definições I

Ginecologista: médico(a) que trabalha onde possivelmente muitos, ou pelo menos alguns, se divertem.