segunda-feira, abril 30, 2007

Para quem enfiar o barrete...

"As pessoas que nos amam têm que nos conhecer um pouco melhor que nós próprios."
Eduardo Sá

É por isso que é delas que esperamos, nos bons e nos maus momentos, acima de tudo, compreensão.

domingo, abril 29, 2007

Dice's Boy

A partir de agora começa o jogo a sério. O meu jogo. E no meu jogo joga-se no meu tabuleiro, com as minhas peças e com os meus dados. Com as minhas regras! Eu é que sei quem joga e quando joga. Eu é que sei quem ganha. E sei que não vou ser eu a ganhar. Nem eu nem outro alguém. No meu jogo ninguém ganha. Todos perdem. Porque o jogo é meu e é assim que eu quero.

Nazarena

Todos os dias te levantas de manhã. Bem cedinho. Sabes sempre o que vais fazer durante todas as horas que vais ter pela frente. Sais convicta e hesitante. Queres mas tens medo. Desces essas ruas estreitas e de piso irregular. Com o azul ao fundo. As tuas roupas negras escuras, acompanhadas pelos 1001 folhos das tuas largas saias, cruzam-se com ingleses, espanhóis e franceses. Estrangeiros para o país e para ti. Pessoas que não te percebem. Porque não vivem a tua vida.
Caminhas até ao areal. Ele é talvez a tua primeira casa. É nele que te sentas religiosamente há anos. Vês os homens vir da faina, em barcos velhos mas que ainda flutuam. Que trazem o alimento e a saudade de muitas famílias. Mas o teu barco não voltou. Não voltou desde que saiu naquele breve momento que tão bem te lembras. Sabes que não virá. Mas mesmo assim esperas por ele. Não te cansas de o fazer só porque queres que ele venha. Que te traga o teu peixe e o teu conforto... Isso nunca irá acontecer. Foi assim que as ondas do mar quiseram. Estava escrito a fogo na água que consegues ver até ao horizonte.
Regressas. Já de noite. Amanhã sabes o que farás. De novo. E será sempre assim. Até que um dia tu vás. E também não voltes.

quinta-feira, abril 26, 2007

Prioridades

Cairia o país se o primeiro-ministro tivesse faltado a um exame do seu curso para ir plantar uma árvore. Só por achar que esse acto lhe serviria melhor para a sua futura função de ministro do Ambiente que o mero acto de preencher uma folha de papel para lhe dar habilitações. Ainda bem que isso não aconteceu.

terça-feira, abril 24, 2007

Par de pés

O corpo humano foi feito na perfeição. Basta para isso ver a razão para que foi feito com dois pés... Eles formam um par, um esquerdo e um direito, para que na areia molhada da praia caminhem alternadamente, respondendo e discutindo saudavelmente um com o outro.
Ao olharmos para uma caminhada gravada no areal, sabemos que a seguir a um pé direito virá um esquerdo. E vice-versa. Uma grande depressão encimada por outras cinco mais pequenas pedindo a resposta do seu inverso. Direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, ...
Faria sentido ver um só pé direito a deixar perguntas soltas? E as respostas do esquerdo?
Faria sentido ver esse mesmo pé direito a tentar responder às suas próprias perguntas, pisando o trilho de ambos os lados? E as respostas do esquerdo?
Todos os pés merecem um par. Por isso é que fomos feitos com dois.

domingo, abril 22, 2007

Pureza

Não há nada mais puro que a mera junção da água com o sal. A forma como ambas se complementam e os motivos que levam à sua união são simplesmente formidáveis. É delicioso vê-las caminhar lado a lado, como um só. Como um que são na realidade. Admirar como o conjunto formado desliza de modo suave por cima da imensa esfera que vê e vive tudo neste mundo. Como turva a bola que muitas vezes devia e merecia ser opaca. Mas a água salgada faz questão de a rasgar de um lado ao outro. Até à beira do abismo.
Aí hesita. Protege-se. Resguarda-se. Ganha força. E depois... cai. Rola como seixos ao sabor das vagas de mar. Resvala por fendas, proeminências, desejos, promessas. Fogo. Apaga-o ou aviva-o. Dá-lhe expressão máxima.
E depois o fim. Um mergulho no infinito. O despedaçar vil numa qualquer superfície. O separar da união perfeita. Ou então... Ou então o aninhar numa mão quente.

segunda-feira, abril 02, 2007

Peixe

Em vez de teres usado a tua própria cabeça, deixaste que fossem os outros a usar o teu corpo. E eu que pensava que subir na vertical era mais fácil que na horizontal...
Já o ditado o diz: pela boca morre o peixe.

terça-feira, março 27, 2007

Pensamento solto

A minha religião sou eu.

terça-feira, março 20, 2007

Inferno

Fervo de raiva as lágrimas salgadas que choro cada dia, há já algum tempo. Cheira a queimado, a sangue, a dor. A incongruência e incredibilidade. É com certeza castigo grave. Ferros cravados na minha carne. Nos meus sentimentos. Amputação de crenças ou vontades de acreditar. Isto é somente o preço a pagar por quem escolhe seguir os seus princípios mais nobres e morrer com eles. Sou assim. E sei que não presto. Nem para mim e muito menos para os outros.
Sou como uma cana verde. Dobra, verga, contorce-se. Mas não quebra. Só parte quando está seca, velha, chupada de todo o seu interior. Vazia. Morta. Podre. Preciso de um sopro gélido que me petrifique e me destrua o resto do que ainda tenho. Do nada que nunca vou perder.
Por favor, quero estar sozinho. Só sei estar sozinho. Deixem que o meu fogo me consuma e me aniquile. Quero não ser eu. Quero não ser isto. Quero ser... não sei. Anseio por sonhos, ilusões. Parvoíces. Edifícios sólidos feitos de cartas que ruem cinicamente a meus pés. Para que sirvo? Digam-me. Diz-me. Não tenhas medo. Quero ouvir-te gritá-lo na minha cara. Quero que digas "zero", "vazio", "nada". Ou simplesmente olha-me nos olhos e não digas uma única palavra.
Não quero desaparecer ou morrer. Quero vaguear. Ao sabor da vontade de algo que sempre me transcende. Quero sentir o impacto com que essa punição me arremessa brutalmente contra as paredes e me desfaz cada pedaço de esperança e felicidade. Quero ver o pó que resta de tudo isso. De mim. Quero uma borracha para te apagar e para me esborratar. Quero perder a lucidez. E a nitidez. Para que nos lembremos sempre de nos esquecer.

domingo, março 18, 2007

Porque

"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."

Sophia de Mello Breyner Andresen