Agora entendo o que buscas. E entendo também todo o trabalho de bastidores que fazes para lá chegares. Agora vejo como te roças e te insinuas em mundos protegidos pela ausência de luz que te denuncie. Sabes perfeitamente ao que vais e usas o mais antigo método do mundo para tentares atrair o já atraído por outrem. Cá dentro sempre o soube porque sempre o vi, mesmo quando não queria deixar que me entrasse pelos olhos. Desde sempre houve um toque especial, um inclinar ousado, um sorriso de provocação, uma frase de entrega. Uma total venda e oferta de ti para a tua pessoa. Sei o que queres e tudo o que fazes são degraus que montas para escalar para mais perto do que almejas.
Mas não te limitas a vender-te de forma descarada. E não te limitas a fazê-lo porque tens plena noção de que não chega simplesmente porque tu também não chegas. Não chegas enquanto gente ou enquanto qualquer outra coisa, por mais pequena e reles que seja. E é por isso que minas toda a sólida estrutura que te bloqueia o caminho e protege celestialmente o teu alvo. Inventas, crias e inovas temas e palavras que soltas pelo caminho. Aqui e ali, para este ou aquele. E é pelas costas, apanhando o escudo desprevenido, que infiltras o veneno na ligação que desejas romper e corromper. E vais moendo-a, incessantemente, na esperança que quebre. De podridão ou de exasperação.
Não sei se conseguirás. Espero que não. Primeiro porque o que existe é de longe melhor que tudo aquilo que queres criar à força. À força de ideais que não devem vingar neste mundo. Segundo, porque mereces perder e perder-te sem fim. Mereces a solidão que não vês que geras em tudo o que tocas. Repulsas. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão luzes para iluminar a escuridão em que exibes a tua nudez de corpo e principalmente de alma para convencer alguém de que serves para ser degustada. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão ecos de som que levarão as tuas ferroadas aos ouvidos de quem tem o direito de as voltar a enfiar a murro na tua boca.
Hás-de continuar a viver nessa amargura de vida. E caso queiras subir nessa amargura de vida, não será certamente à custa dos que se encontram acima de ti e que têm mais poder que tu. Ainda vais ter que rastejar muito...
Este é o meu Atlas.O meu Atlas Deus que carrega o meu mundo. O meu Atlas que sofre por sonhos. O meu Atlas que, mesmo sofrendo por vezes, é feliz por sonhar.
sábado, outubro 31, 2009
sexta-feira, setembro 11, 2009
Existência inexistente

A vida que vives não é tua. É provável que nunca tenha sido. Não é esse o teu fato e o papel que tens que representar neste palco cuja plateia te observa atentamente. Não é essa a tua árvore sob a qual dormes à sombra. Estás enganada, errada e equivocada. Julgas que são esses os teus princípios, gostos e preferências, embora eles não passem de uma ilusão que te foi sendo passada ao longo dos anos pelo modelo que sempre quiseste ser e que foste absorvendo, qual esponja, sem critério nenhum de racionalidade ou selecção. Limitaste-te a encarnar alguém que não és e que a tua própria pessoa te obrigou a ser sem pedir permissão. És um ser dentro de ti contra a tua própria vontade inconsciente, lutando sem força e resignadamente para te livrares daquilo que para sempre serás.
Para além de não conseguires ver-te no espelho sem que reflictas uma outra face desconhecida da tua suposta existência própria, obrigas-te a viver a vida de outros. De outros que também desconheces e que julgas deuses sagrados e incólumes. Deuses que adoras incessantemente no teu altar de juízos que julgas íntegro mas que não é mais que uma fantasia que a tua não-personalidade constrói escondida dos olhos que não tens e que só vêem aquilo que tetricamente te deixam e lhes convém. E por serem deuses aqueles que veneras, absorves também tudo o que estas almas supremas te indicam. Segues cegamente sem o mínimo desacato tudo o que te ordenam e rejubilas por te vergares desse modo e por cumprires a preceito todos os seus preconceitos, mesmos que vergues a tua vertical integridade. E o resultado não pode ser mais prejudicial para ti pois passas também tu a carregar os preconceitos e valores alheios. Preconceitos e valores que só te descaracterizam ainda mais e que só ajudam a tapar mais os deuses das suas responsabilidades, carregando-as directamente para ti e, por vezes, só para ti. Porque agora és também tu que passas a responder por actos que não seriam teus de raiz e que incorporaste de forma tão profunda que já não te saem da carne. E se estão desta forma aderentes a tudo o que tu és, a culpa tem que ser necessariamente da tua pessoa. Uma pessoa demasiado ingénua, com uma péssima auto-estima, uma baixíssima auto-crítica racional e uma inexistente capacidade de pensar o que existe à volta e que cai sobre ti como uma ave de rapina sem dó de te dilacerar com as grandes garras curvas e esfolar com o grotesco bico afiado.
Hoje já não consigo caracterizar a tua natureza. Não sei se é boa ou se é má. Se é talvez um misto das duas. O mais provável é que não tenhas natureza simplesmente porque não existes enquanto pessoa individual mas sim como o resultado de tudo o que te injectaram pelas costas. E foi tanto o que essas agulhas introduziram no teu ser, que agora já nada resta do pouco que poderia existir com o teu nome. Só consegues ser tu sendo outros. E isso não é bom. Isso é sempre o princípio do nosso fim. Quando deixamos de ter personalidade própria, quando deixamos de ter gostos, quando deixamos de assumir escolhas... É aí que começamos a deixar de existir.
Estás-te a esfumar.
terça-feira, setembro 01, 2009
Força
Da primeira vez disseste que seria mais fácil que um golo do Jardel de cabeça.
Depois da terceira vez, continuo a achar que não é bem assim. Mas o que contou foi a tua intenção. E essa deu-me mais força que qualquer verdade absoluta que me pudesses falar.
Depois da terceira vez, continuo a achar que não é bem assim. Mas o que contou foi a tua intenção. E essa deu-me mais força que qualquer verdade absoluta que me pudesses falar.
sexta-feira, agosto 28, 2009
Veneno
Não posso ser mais sincero quando digo que não sei porque o fizeste. Não tenho mesmo a mais pálida das ideias de modo a que o consiga justificar. Como foste capaz? Quero que me digas. Diz-me como é que foste capaz sua grandessíssima cabra de merda... Explica-me como tiveste a audácia de prostituíres sentimentos e relações de uma forma tão banal e vulgar. Como conseguiste tornar corriqueiro algo que tanto do sagrado se aproxima? É tudo tão surreal e retirado de um contexto que não existe em lado algum. O enredo e as personagens são nuvens de fumo cuja cor nem consigo discernir do nevoeiro denso que as envolve.
Sabes... Ninguém te merece. E tu não mereces ninguém também. De nenhuma maneira. E tu sabe-lo porque o sentes quando se crava bem fundo na tua pele. No teu cérebro. Principalmente no teu coração. Não jogas limpo e preferes andar por trás, qual animal medroso escondido e minimalescamente agachado atrás dos calcanhares de quem te tem num altar para assim poderes morder e pisar quando mais te apetece e quando menos te esperam. Porque nunca te esperam. Porque nunca conseguem ver. Porque nunca querem ver.
Jamais algo que eu possa ter ou não feito poderá servir de pré-pagamento para o recibo que me passaste. Só algo que exista somente no teu mundo. Nesse mundo de valores corrompidos e fúteis, onde o que interessa é a aparência e o objectivo a curto alcance. Onde a vista só enxerga aquilo que dá prazer no instante e que satisfaz os teus mais profundos impulsos decrépitos, incoerentes e sem nexo. Impulsos que vestes de morais, mas com roupas tão andrajosas que não chegam para cobrir o odor putrefacto que sob elas exala. Ages no momento como quem quer desesperadamente apreender algo ou alguém, com vista a prendê-lo a uma conversa de esquina que de pior e falso só tem menos que a alma que não tens. És a primeira pessoa a trair a tua própria pessoa que não existe. Porque não olhas para ti? Porque não falas de ti? Porque não assumes as tuas estórias? Porque não admites os teus pecados? Porque não os bradas aos céus? Porque não os bradas como fazes aos dos outros, mesmo que inventados por essa mente perversa e corrompida por sistemas desconectados de toda a ética? Porque não cantas a tua vida bem alto?
É tão mais fácil falar dos outros. Tão mais fácil não querer falar de ti. Porque aí terias tanto para falar. Porque aí talvez deixasses de ter alguém para te ouvir. Porque todos os erros que os outros cometeram, tu já os cometeste também. E cometeste-os mais vezes. E cometeste-os de uma maneira mais vil. E cometeste ainda aqueles que nem se ousam pronunciar. És um nojo. És pior que isso. És um castelo de cinza à espera de uma brisa que te sopre ao chão. Ou para lado nenhum. Um castelo que hoje só se deveria manter de pé colado pela saliva cuspida por todos aqueles que te deveriam desprezar do alto de onde os tentas, impacientemente, tirar.
Sabes... Ninguém te merece. E tu não mereces ninguém também. De nenhuma maneira. E tu sabe-lo porque o sentes quando se crava bem fundo na tua pele. No teu cérebro. Principalmente no teu coração. Não jogas limpo e preferes andar por trás, qual animal medroso escondido e minimalescamente agachado atrás dos calcanhares de quem te tem num altar para assim poderes morder e pisar quando mais te apetece e quando menos te esperam. Porque nunca te esperam. Porque nunca conseguem ver. Porque nunca querem ver.
Jamais algo que eu possa ter ou não feito poderá servir de pré-pagamento para o recibo que me passaste. Só algo que exista somente no teu mundo. Nesse mundo de valores corrompidos e fúteis, onde o que interessa é a aparência e o objectivo a curto alcance. Onde a vista só enxerga aquilo que dá prazer no instante e que satisfaz os teus mais profundos impulsos decrépitos, incoerentes e sem nexo. Impulsos que vestes de morais, mas com roupas tão andrajosas que não chegam para cobrir o odor putrefacto que sob elas exala. Ages no momento como quem quer desesperadamente apreender algo ou alguém, com vista a prendê-lo a uma conversa de esquina que de pior e falso só tem menos que a alma que não tens. És a primeira pessoa a trair a tua própria pessoa que não existe. Porque não olhas para ti? Porque não falas de ti? Porque não assumes as tuas estórias? Porque não admites os teus pecados? Porque não os bradas aos céus? Porque não os bradas como fazes aos dos outros, mesmo que inventados por essa mente perversa e corrompida por sistemas desconectados de toda a ética? Porque não cantas a tua vida bem alto?
É tão mais fácil falar dos outros. Tão mais fácil não querer falar de ti. Porque aí terias tanto para falar. Porque aí talvez deixasses de ter alguém para te ouvir. Porque todos os erros que os outros cometeram, tu já os cometeste também. E cometeste-os mais vezes. E cometeste-os de uma maneira mais vil. E cometeste ainda aqueles que nem se ousam pronunciar. És um nojo. És pior que isso. És um castelo de cinza à espera de uma brisa que te sopre ao chão. Ou para lado nenhum. Um castelo que hoje só se deveria manter de pé colado pela saliva cuspida por todos aqueles que te deveriam desprezar do alto de onde os tentas, impacientemente, tirar.
quarta-feira, agosto 12, 2009
Revoltado
Revoltado. É isto que as pessoas me chamam. Revoltado... Julgam elas que tenho um pequeno vulcão dentro de mim a destilar constantemente veneno e ira. Que cospe sem parar uma vontade eterna de ser do contra. De ser diferente por necessidade. De embirrar com o mundo só porque sim. De me revoltar contra tudo e todos.
Eu chamo-lhe inconformado. Gosto de não me ficar com aquilo que não corresponde aos meus valores. Opto por ser honesto comigo próprio e lutar para atingir sempre aquilo que melhor se adequa a mim. Não me conformo com resultados negativos, opções erradas, posições desleixadas. Não aceito. Não tolero. Por isso luto, procuro, esforço-me, desgasto-me. Sei que posso pagar, por vezes, um preço bem alto. Posso pagar em pessoas, em relações. Em objectos também. Mas pelo menos sou fiel a mim próprio e à perfeição que tento atingir comigo mesmo.
Quem me conhece sabe que sou assim. Por vezes uma parede perante armas que me ferem de morte as minhas mais puras fundações. Mas pelo menos posso-me gabar de ter princípios próprios. Posso-me gabar de ter princípios que não são dos outros. Posso-me gabar de não ceder a pressões externas para os trucidar. Ao contrário de vocês que vão ao sabor da sociedade e daquilo que mais vos dá jeito quando vos apetece. Ou quando não vos apetece.
Podem-me chamar revoltado as vezes que quiserem. Ou coisas bem piores se acharem melhor. Independentemente disso, nunca vão chegar a ser tão íntegros como eu sou e sempre serei.
Eu chamo-lhe inconformado. Gosto de não me ficar com aquilo que não corresponde aos meus valores. Opto por ser honesto comigo próprio e lutar para atingir sempre aquilo que melhor se adequa a mim. Não me conformo com resultados negativos, opções erradas, posições desleixadas. Não aceito. Não tolero. Por isso luto, procuro, esforço-me, desgasto-me. Sei que posso pagar, por vezes, um preço bem alto. Posso pagar em pessoas, em relações. Em objectos também. Mas pelo menos sou fiel a mim próprio e à perfeição que tento atingir comigo mesmo.
Quem me conhece sabe que sou assim. Por vezes uma parede perante armas que me ferem de morte as minhas mais puras fundações. Mas pelo menos posso-me gabar de ter princípios próprios. Posso-me gabar de ter princípios que não são dos outros. Posso-me gabar de não ceder a pressões externas para os trucidar. Ao contrário de vocês que vão ao sabor da sociedade e daquilo que mais vos dá jeito quando vos apetece. Ou quando não vos apetece.
Podem-me chamar revoltado as vezes que quiserem. Ou coisas bem piores se acharem melhor. Independentemente disso, nunca vão chegar a ser tão íntegros como eu sou e sempre serei.
sexta-feira, julho 31, 2009
Reflexão
Nunca antes precisei de parar como agora. Para rever, para pensar, para reflectir. Para escolher, decidir. Para recomeçar a andar de novo, outra vez. Acho que já voltei.
quinta-feira, junho 25, 2009
Free at last
Acabaram as longas noites de Domingo à espera que o trabalho estivesse feito em condições. Acabaram as longas sessões de sugestões, correcções, contra-sugestões e contra-correcções. Acabaram essas longas sessões cujos resultados eram por vezes nulos e que necessitavam de repetição de toda a sessão. Acabaram os trabalhos entregues às prestações. Acabaram as manhãs ansiando a última frase que haveria de chegar atrasada numa folha de papel solta. Acabaram os cuidados e descuidados para que tudo aparecesse feito. Acabaram as faltas de responsabilidade mal justificadas e tapadas pela competência de outros. Acabaram as horas extraordinárias, os porque "não me apetece" ou os "daqui a bocado". Acabaram os "ainda falta muito tempo". Acabaram-se as faltas de comunicação ou as más comunicações. Acabaram as longas listas de e-mails a chegar em catadupa à hora do fecho da editorial. Acabaram noites pouco dormidas por causa disso. Acabaram as desconversas e as poucas conversas. Acabaram as procuras de coerência para uma manta de retalhos. Acabaram, acabaram, acabaram.
Finalmente acabaram a merda dos trabalhos de grupo.
"Free at last, free at last, almighty Lord we are free at last!"
Finalmente acabaram a merda dos trabalhos de grupo.
"Free at last, free at last, almighty Lord we are free at last!"
quarta-feira, maio 27, 2009
Cereja
Há dias péssimos. Há outros menos bons. Há ainda aqueles que são banalíssimos. Mas felizmente há também aqueles a que podemos chamar de perfeitos.
Há dias em que nos levantamos a irradiar felicidade. Em que todo o mínimo gesto ou movimento que fazemos sai sempre conforme o planeado. Conseguimos ser felizes com os outros. Com alguns outros. Rimos e brincamos. Dispensamos por completo o trabalho e temos o prazer de gozar o dia inteiro na maior das despreocupações. Ainda bem que há dias assim. Dias em que, para além de tudo correr bem, podemo-nos ainda gabar de ter vencido algumas guerras bem pessoais. Aquelas guerras tão nossas e que se discutem ao pormenor. A nossa felicidade às vezes também passa pela desgraça e miséria dos outros. E não tenho medo de dizer que sabe bem. Sabe bem porque nós estamos bem. Mesmo que seja com o mal dos outros. E nestes dias perfeitos é óptimo ver e sentir que fomos capazes de estragar o dia a alguém que simplesmente já o andava a merecer há algum tempo. É a cereja no topo do bolo.
Há dias em que nos levantamos a irradiar felicidade. Em que todo o mínimo gesto ou movimento que fazemos sai sempre conforme o planeado. Conseguimos ser felizes com os outros. Com alguns outros. Rimos e brincamos. Dispensamos por completo o trabalho e temos o prazer de gozar o dia inteiro na maior das despreocupações. Ainda bem que há dias assim. Dias em que, para além de tudo correr bem, podemo-nos ainda gabar de ter vencido algumas guerras bem pessoais. Aquelas guerras tão nossas e que se discutem ao pormenor. A nossa felicidade às vezes também passa pela desgraça e miséria dos outros. E não tenho medo de dizer que sabe bem. Sabe bem porque nós estamos bem. Mesmo que seja com o mal dos outros. E nestes dias perfeitos é óptimo ver e sentir que fomos capazes de estragar o dia a alguém que simplesmente já o andava a merecer há algum tempo. É a cereja no topo do bolo.
quarta-feira, maio 20, 2009
Julgamento
Não me julguem pelo que vocês julgam que sabem. Julguem-me antes quando souberem aquilo que eu sei.
domingo, maio 10, 2009
Tarde
Nunca te conheci. Não consigo sequer imaginar como serias. Loiro ou moreno. Alto ou baixinho. Gorducho ou trinca-espinhas. Sei no entanto que eras um pequeno rapazinho como muitos outros que não viveram o que tu viveste. Certamente brincarias durante quase todo o dia. Com os teus pais, irmãos e avós à tua volta. Serias provavelmente muito feliz na tua ingenuidade própria de criança. Viverias numa vida que para ti era eterna e sem perigos, repleta de sonhos e momentos únicos e insignificantes para quem não tinha o teu tempo e habilidade para lhes dar significado.
Um dia essa tua vontade infinita de descobrir não te aconselhou devidamente. A tua curiosidade desmedida por querer conhecer um mundo enorme em meros segundos deixou-te escorregar. Talvez quisesses apanhar o teu próprio reflexo. Ou fosses em busca de um brinquedo que deixaras cair. Ou simplesmente estivesses fascinadamente vidrado nos pequenos movimentos da água quando o vento a beijava à superfície. Independentemente do motivo, a verdade é que mergulhaste. Mergulhaste na água demasiado profunda, extensa e pesada para que dela te conseguisses desembaraçar. Se calhar nem deste por nada. Nem tu nem mais ninguém que estivesse por perto. Se calhar foste ao fundo, na mais honesta das calmas, puxado pelo peso das tuas roupas coloridas e cheias de bonecos. Camisas-de-forças que acabaram por te prender irremediavelmente, sem hipótese de saída.
Quando te acharam, estranhando o teu silêncio, já lá estavas há demasiado tempo. Pouco tempo, mas demasiado. Descobrindo forças e rapidez que desconheciam neles próprios, trouxeram-te à tona completamente ensopado. Estavas pálido. Branco de morte e com os lábios roxos, frios e inertes. Nem conseguias ouvir os gritos, os choros e toda a restante azáfama à tua volta. Mas o teu coração ainda batia timidamente e a tua respiração, ainda que superficial, tentava aspirar a vida à tua volta para dentro do teu corpo. Esporadicamente contorcias-te todo, de uma forma horrendamente anárquica, levando os teus braços e pernas a serem projectados sem sentido e na direcção que bem entendiam. Agarravam-te com medo que fugisses. E tu não eras diferente: também tu te tentavas agarrar, embora não sabendo bem ao quê.
O tempo passava de uma forma demasiadamente sonolenta e sussurrada, como se teimasse em arrastar-se sem pressa alguma. No entanto, foi num ápice que voaste e galgaste quilómetros em busca do teu elixir da vida eterna. Os vultos brancos rodopiavam à tua volta, num rodopio de sombras, vozes e acções muitas vezes mecanizadas e conscientemente desconsciencializadas. Análises, sangue, agulhas, oxigénio, tensão arterial, temperatura, ... Não respondias a ninguém. Gostarias certamente de gritar por ajuda, de pôr cá fora a dor que tinhas dentro de ti. Mas estavas já preso dentro da tua própria cabeça. Médicos, macas, enfermeiros, camas, ... Naquela sala só tu ainda eras nítido. Estático no meio de imagens constantemente desfocadas à tua beira, como uma fotografia que não consegue focar o objecto astuto que se mexe sem se deixar eternizar.
Nunca te conheci. Não consigo imaginar sequer como serias. No entanto sei que devias ser forte e teimoso. À medida que passo as folhas deste monte, todas com o teu nome, vejo a tua luta incessante e injusta. Vejo o trapo em que chegaste, incapaz de chorar aquela última lágrima ardente e dolorosa. Os números das inúmeras quantidades de líquidos e medicamentos que te correram nas veias correm-me à frente dos olhos. Uns atrás dos outros, adicionando-se regradamente página após página. Melhoras discretamente. Ainda aí estás. Agora é uma máquina que respira por ti. Que te enche os pulmões de alimento e a mente dos outros de esperança. Mas estás demasiado parado. O rodopio não pára, agora mais sub-reptício e tremendamente silencioso. Tens tubos por todo o lado. No nariz, na boca, nos braços. Aparelhos electrónicos que registam e regulam todo o resquício de vida que ainda te resta. Barulhos monótonos e apitos repetidamente iguais. Luzes perdidas na escuridão do quarto, reflectindo no teu corpo despido. De vestes e de quase tudo.
Passo a página. A última. Não acho que tenhas desistido. Talvez tenhas ficado sem forças. Estavas a afogar-te vertiginosamente na água que inundava os teus pulmões. Já nada te servia e tratava. Tudo o que te era dado era insuficiente. Eram só desesperos. Estavas a ser destruído aos poucos por dentro, como se tivesses engolido uma comida mesquinha que te rasga devagar como quem quer magoar. Todos os órgãos falhavam. Um a seguir ao outro. Por mais que alguém te puxasse para cá, tu já não vinhas. Nem conseguirias vir se tu próprio tivesses a força do mundo. Do teu antigo mundo.
As palavras na folha continuavam em catadupa. Numa sequência negra e com fim óbvio. Linha após linha desaparecias fugazmente. Não deviam ser dados desafios destes a pequenas crianças como tu. Desafios perdidos à partida. Mesmo quando jogados com a ajuda de tanta gente como a que te tentou ajudar. Que tentavam como se fossem eles próprios. Como se também fossem eles. Como se também fosses deles. Mas já era tarde. Muito tarde. Tarde no relógio e tarde para ti. Tinha acabado. Tu tinhas acabado.
Time of death....
Um dia essa tua vontade infinita de descobrir não te aconselhou devidamente. A tua curiosidade desmedida por querer conhecer um mundo enorme em meros segundos deixou-te escorregar. Talvez quisesses apanhar o teu próprio reflexo. Ou fosses em busca de um brinquedo que deixaras cair. Ou simplesmente estivesses fascinadamente vidrado nos pequenos movimentos da água quando o vento a beijava à superfície. Independentemente do motivo, a verdade é que mergulhaste. Mergulhaste na água demasiado profunda, extensa e pesada para que dela te conseguisses desembaraçar. Se calhar nem deste por nada. Nem tu nem mais ninguém que estivesse por perto. Se calhar foste ao fundo, na mais honesta das calmas, puxado pelo peso das tuas roupas coloridas e cheias de bonecos. Camisas-de-forças que acabaram por te prender irremediavelmente, sem hipótese de saída.
Quando te acharam, estranhando o teu silêncio, já lá estavas há demasiado tempo. Pouco tempo, mas demasiado. Descobrindo forças e rapidez que desconheciam neles próprios, trouxeram-te à tona completamente ensopado. Estavas pálido. Branco de morte e com os lábios roxos, frios e inertes. Nem conseguias ouvir os gritos, os choros e toda a restante azáfama à tua volta. Mas o teu coração ainda batia timidamente e a tua respiração, ainda que superficial, tentava aspirar a vida à tua volta para dentro do teu corpo. Esporadicamente contorcias-te todo, de uma forma horrendamente anárquica, levando os teus braços e pernas a serem projectados sem sentido e na direcção que bem entendiam. Agarravam-te com medo que fugisses. E tu não eras diferente: também tu te tentavas agarrar, embora não sabendo bem ao quê.
O tempo passava de uma forma demasiadamente sonolenta e sussurrada, como se teimasse em arrastar-se sem pressa alguma. No entanto, foi num ápice que voaste e galgaste quilómetros em busca do teu elixir da vida eterna. Os vultos brancos rodopiavam à tua volta, num rodopio de sombras, vozes e acções muitas vezes mecanizadas e conscientemente desconsciencializadas. Análises, sangue, agulhas, oxigénio, tensão arterial, temperatura, ... Não respondias a ninguém. Gostarias certamente de gritar por ajuda, de pôr cá fora a dor que tinhas dentro de ti. Mas estavas já preso dentro da tua própria cabeça. Médicos, macas, enfermeiros, camas, ... Naquela sala só tu ainda eras nítido. Estático no meio de imagens constantemente desfocadas à tua beira, como uma fotografia que não consegue focar o objecto astuto que se mexe sem se deixar eternizar.
Nunca te conheci. Não consigo imaginar sequer como serias. No entanto sei que devias ser forte e teimoso. À medida que passo as folhas deste monte, todas com o teu nome, vejo a tua luta incessante e injusta. Vejo o trapo em que chegaste, incapaz de chorar aquela última lágrima ardente e dolorosa. Os números das inúmeras quantidades de líquidos e medicamentos que te correram nas veias correm-me à frente dos olhos. Uns atrás dos outros, adicionando-se regradamente página após página. Melhoras discretamente. Ainda aí estás. Agora é uma máquina que respira por ti. Que te enche os pulmões de alimento e a mente dos outros de esperança. Mas estás demasiado parado. O rodopio não pára, agora mais sub-reptício e tremendamente silencioso. Tens tubos por todo o lado. No nariz, na boca, nos braços. Aparelhos electrónicos que registam e regulam todo o resquício de vida que ainda te resta. Barulhos monótonos e apitos repetidamente iguais. Luzes perdidas na escuridão do quarto, reflectindo no teu corpo despido. De vestes e de quase tudo.
Passo a página. A última. Não acho que tenhas desistido. Talvez tenhas ficado sem forças. Estavas a afogar-te vertiginosamente na água que inundava os teus pulmões. Já nada te servia e tratava. Tudo o que te era dado era insuficiente. Eram só desesperos. Estavas a ser destruído aos poucos por dentro, como se tivesses engolido uma comida mesquinha que te rasga devagar como quem quer magoar. Todos os órgãos falhavam. Um a seguir ao outro. Por mais que alguém te puxasse para cá, tu já não vinhas. Nem conseguirias vir se tu próprio tivesses a força do mundo. Do teu antigo mundo.
As palavras na folha continuavam em catadupa. Numa sequência negra e com fim óbvio. Linha após linha desaparecias fugazmente. Não deviam ser dados desafios destes a pequenas crianças como tu. Desafios perdidos à partida. Mesmo quando jogados com a ajuda de tanta gente como a que te tentou ajudar. Que tentavam como se fossem eles próprios. Como se também fossem eles. Como se também fosses deles. Mas já era tarde. Muito tarde. Tarde no relógio e tarde para ti. Tinha acabado. Tu tinhas acabado.
Time of death....
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