Já imaginaste como tudo será quando formos grandes? Quando formos maiores e mais crescidos?
Será que ainda nos vamos conhecer? Ainda seremos capazes de trocar palavras de conforto, carinho e compreensão? Se nos afastarmos, teremos a habilidade de nos reconhecer por trás do tempo que passou? Teremos orgulho daquilo que cada um de nós se tornou? E daquilo que o outro se tornou? Ou será que nos envergonharemos perante todas as nossas esperanças e desejos actuais? Teremos sido capazes de corrigir os nossos defeitos ou simplesmente de os refinar mais? Encontraremos a nossa outra melhor metade com que sempre sonhámos? Será alguém hoje para nós um desconhecido ou aquela pessoa que sempre aqui esteve sem darmos pela sua presença e que futuramente será o brilho do nosso ser?
Quando formos grandes, teremos perdido a capacidade de chorar? Ou será que o continuaremos a fazer de cabeça erguida sempre que o peso da vida nos pesar demais? Teremos sarado feridas ou somente herdado mais cicatrizes de guerras que agora não descortinamos? Conseguiremos ainda sentarmo-nos lado a lado, reconhecendo a amizade do outro num simples encostar mútuo da cabeça no ombro que atraca ao lado? Teremos, ao invés disso, minado por completo qualquer réstia de ligação humana que existisse? Saberemos ouvir o silêncio que nos enche a alma quando está vazia, sem necessidade de clamar por ajuda? Quando fecharmos os olhos, ainda saberemos onde o outro está mesmo no escuro?
Saberemos saborear o prazer das pequenas coisas, mesmo que elas se repitam a ciclos? Ou conformar-nos-emos numa toca isolada, desesperando pelo crescimento caduco e nada perene? Seremos capazes de ainda procurar as pontes que nos unem e os vales que nos afastam, mas que todos juntos criam esta dualidade una? Ansiaremos sempre ainda por mais um pedaço de vida com o outro e com quem queira connosco degustar o tempo? Antes seremos derrotados por utópicas outras vidas que de nós florescerão e nos consumirão as atenções? Seremos vencidos pela gula e soberba de quem se deixou vencer a si próprio? Ou continuaremos a encontrar o caminho de volta a casa, por entre fragas e matas?
Agora, aqui, não sei se quero crescer. Não me urge o desconhecido quando o que tenho e tacteio me é tão real e tão seguro. Tão presente.
Já imaginaste como tudo será quando formos grandes? E quando formos grandes, será que continuaremos a lembrar do tempo em que éramos pequenos? Às vezes acho que o melhor seria ficarmos para sempre suspensos num marasmo que só nos prolongasse este momento melancólico que é poder partilhar este pensamento inventivo com alguém que não sabemos onde estará amanhã. Que talvez já não exista quando crescermos.
Este é o meu Atlas.O meu Atlas Deus que carrega o meu mundo. O meu Atlas que sofre por sonhos. O meu Atlas que, mesmo sofrendo por vezes, é feliz por sonhar.
domingo, março 28, 2010
domingo, fevereiro 28, 2010
Despedida
Uma mão que se abre num aceno, com os dedos esguios estendidos a medo. Outra mão que se enrola num aperto cordial ousando demonstrar alguma força que já não tem. Um abraço que envolve um tronco de tal modo sôfrego que já não respira.
Há momentos em que a mente se quer despedir. Alturas em que o conforto não chega de onde se queria e a esperança é vã memória dos tempos que se sonharam e nunca foram realidade. O corpo não tem outra solução que não obedecer a esse desígnio imperial imposto pela voz que o comanda. Contrariado ou não, cabe-lhe dar forma a algo muito mais complexo que uma simples palavra ou sentimento. Porque as despedidas são um ciclone de emoções contraditórias e vontades tantas vezes desconexas e incoerentes entre si, mas que acabam por se fundir em algo tão objectivo e concreto como um adeus.
Uma lágrima que se desprende num fio de ouro caduco e fugaz. Um nó na garganta incómodo que se disfarça mal quando se engole em seco aquilo que se quer, mas não se pode dizer. Ou um aperto no peito, que aperta algo que já não existe e cuja existência se questiona sem cessar.
Será que escolhemos poder ir embora? Serão os outros que nos deixam ir embora? Ou serão os outros que vão e ficamos nós sempre no lugar onde estivemos e de onde nunca sairemos? Uma despedida é sempre subjectiva e relativa. Talvez não interesse quem parta e quem permita partir. Talvez nem interesse saber se isso interessa. Porque, no final das contas, o que resta é o abandono que ardeu lentamente de forma penosa enquanto nunca se deu por ele. Um fogo que se alimentou de muito mais que o oxigénio que necessitaria para respirar e que transgrediu todas as barreiras que o bom senso deveria impor.
Um passo tímido que se começa em direcção a um novo rumo, talvez cópia do que agora se nega. Um último desviar no olhar incrédulo com a dor cabal do que já não capta. Uma certeza da decisão que se incorpora por fim, quando finalmente tudo se torna óbvio.
Foi a ausência. A inexistência de uma presença que se conjecturou sob ideais e premissas dúbias descritas em fábulas e romances irreais. Porventura surreais. Foi a dor do esquecimento. Da lembrança de permitir o abandono tão concreto e visível que quase chega a ser sorrateiro. Porventura matreiro. Foi a incongruência. A coerência de usar do poder conforme fazia gosto ao uso do abuso de querer tudo sem escrúpulos. Foi tudo isso. Um esgar tétrico e silencioso que se apagou cordialmente entre ambas as partes sem combinação ou contrato prévios. Uma despedida da qual todos são conscientes e coniventes. E que, mesmo sem nunca o expressarem com a voz que a natureza concedeu a quem dela faz uso, há muito ansiavam. Com uma força tão honesta quanto cruel.
Há momentos em que a mente se quer despedir. Alturas em que o conforto não chega de onde se queria e a esperança é vã memória dos tempos que se sonharam e nunca foram realidade. O corpo não tem outra solução que não obedecer a esse desígnio imperial imposto pela voz que o comanda. Contrariado ou não, cabe-lhe dar forma a algo muito mais complexo que uma simples palavra ou sentimento. Porque as despedidas são um ciclone de emoções contraditórias e vontades tantas vezes desconexas e incoerentes entre si, mas que acabam por se fundir em algo tão objectivo e concreto como um adeus.
Uma lágrima que se desprende num fio de ouro caduco e fugaz. Um nó na garganta incómodo que se disfarça mal quando se engole em seco aquilo que se quer, mas não se pode dizer. Ou um aperto no peito, que aperta algo que já não existe e cuja existência se questiona sem cessar.
Será que escolhemos poder ir embora? Serão os outros que nos deixam ir embora? Ou serão os outros que vão e ficamos nós sempre no lugar onde estivemos e de onde nunca sairemos? Uma despedida é sempre subjectiva e relativa. Talvez não interesse quem parta e quem permita partir. Talvez nem interesse saber se isso interessa. Porque, no final das contas, o que resta é o abandono que ardeu lentamente de forma penosa enquanto nunca se deu por ele. Um fogo que se alimentou de muito mais que o oxigénio que necessitaria para respirar e que transgrediu todas as barreiras que o bom senso deveria impor.
Um passo tímido que se começa em direcção a um novo rumo, talvez cópia do que agora se nega. Um último desviar no olhar incrédulo com a dor cabal do que já não capta. Uma certeza da decisão que se incorpora por fim, quando finalmente tudo se torna óbvio.
Foi a ausência. A inexistência de uma presença que se conjecturou sob ideais e premissas dúbias descritas em fábulas e romances irreais. Porventura surreais. Foi a dor do esquecimento. Da lembrança de permitir o abandono tão concreto e visível que quase chega a ser sorrateiro. Porventura matreiro. Foi a incongruência. A coerência de usar do poder conforme fazia gosto ao uso do abuso de querer tudo sem escrúpulos. Foi tudo isso. Um esgar tétrico e silencioso que se apagou cordialmente entre ambas as partes sem combinação ou contrato prévios. Uma despedida da qual todos são conscientes e coniventes. E que, mesmo sem nunca o expressarem com a voz que a natureza concedeu a quem dela faz uso, há muito ansiavam. Com uma força tão honesta quanto cruel.
sábado, janeiro 30, 2010
Intenso
Gosto de viver no máximo. Não que isto queira dizer que goste de correr riscos e entrar em aventuras. De maneira nenhuma. Gosto de caminhos seguros e bem definidos, onde a minha margem de erro é sempre a menor possível e, sempre que possível, manobrada ao meu jeito. Apesar disso, gosto de fazer esses caminhos no máximo das minhas capacidades. Gosto de investir tudo em mim, em tudo o que faço e naqueles que me acompanham nestas andanças. Dou tudo de mim e do que tenho em mim para que tenha os melhores resultados possíveis e para ajudar aqueles que tenho à minha volta e que estimo mais do que por vezes me estimo a mim próprio.
E se o faço de forma tão gigante quando gosto, também o faço quando detesto. Gosto de detestar e odiar com todas as minhas forças. Chateio-me e expludo com a maior das mais mortais energias, disparando toda a pólvora que posso arranjar. Não tolero valores sem valor, moralidades imorais, verdades mentirosas e erros descuidados feitos de propósito. E se não os tolero, vibro com força na por vezes vã tentativa de os implodir com a minha vontade enorme e avassaladora.
Sou intenso. Intenso em tudo o que faço. Quando amo ou quando desprezo. Quando procuro ou quando repulso. Para o bem e para o mal, dou 100% por tudo aquilo que eu acho que merece a pena. Porque não gosto de ser acusado de falta de empenho. Porque para mim é desrespeito não darmos tudo o que temos para oferecer. Vivo tudo, sinto tudo, absorvo tudo. Da forma mais intensa que possam imaginar.
E se o faço de forma tão gigante quando gosto, também o faço quando detesto. Gosto de detestar e odiar com todas as minhas forças. Chateio-me e expludo com a maior das mais mortais energias, disparando toda a pólvora que posso arranjar. Não tolero valores sem valor, moralidades imorais, verdades mentirosas e erros descuidados feitos de propósito. E se não os tolero, vibro com força na por vezes vã tentativa de os implodir com a minha vontade enorme e avassaladora.
Sou intenso. Intenso em tudo o que faço. Quando amo ou quando desprezo. Quando procuro ou quando repulso. Para o bem e para o mal, dou 100% por tudo aquilo que eu acho que merece a pena. Porque não gosto de ser acusado de falta de empenho. Porque para mim é desrespeito não darmos tudo o que temos para oferecer. Vivo tudo, sinto tudo, absorvo tudo. Da forma mais intensa que possam imaginar.
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Dias perfeitos
Hoje apetece-me ouvir o brilho das estrelas lá no céu, longínquas e fora do nosso alcance. Quero cheirar o som do sopro da brisa que voa sem amarras e sem destino. Tenho vontade de saborear o cheiro do teu perfume quando te cruzas comigo bem perto. Anseio por ver o calor aconchegante e terno da tua cabeça encostada no meu ombro ao fim da noite. E por fim, desejo tocar o sabor do teu beijo antes de adormecermos juntos sem nos preocuparmos com nada.
Felizmente que ainda há dias perfeitos...
Felizmente que ainda há dias perfeitos...
domingo, dezembro 20, 2009
É agora
Abrir aquela porta e senti-la e ouvi-la fechar-se atrás de mim pela última vez é algo que para sempre me ecoará na memória.
Estava um dia lindo. Um daqueles dias de Inverno em que o sol é utopia porque a realidade são telhados de nuvens escuras e pesadas que nos cobrem sem intervalos. Um daqueles dias de Inverno em que o frio nos aquece o ego, nos atravessa até aos ossos e nos arrepia à mais pequena brisa de gelo. Um daqueles dias de Inverno em que até a própria chuva, que invariavelmente tem que cair, cai de forma escassa e com medo de congelar, com pingos tímidos de vergonha.
Daquela vez a porta pareceu-me muito mais leve quando fiz força no puxador. Pareceu que deslizou sob o seu peso como que fazendo-me uma sublime e frágil vénia à medida que lhe passava a ombreira. Não me deteve nem sequer o tentou fazer, simplesmente porque desta vez sabia que não valia a pena. Fechei o casaco até ao cimo, tão decidido quanto o máximo que poderia estar em qualquer situação que alguma vez terei enfrentado.
Não tive medo do frio, do vento ou sequer da chuva que reinavam e se divertiam lá fora. Abracei-os. Puxei-os para junto de mim agradado pela companhia neste último caminho. Soube bem senti-los à minha volta, quase me levando ao colo. Olhei pelo canto do olho, por cima do meu ombro esquerdo. Lá estava ele, onde há mais de meio século sempre estivera. Onde há meia dúzia de anos eu sempre o vira. Impávido e pouco sereno. Mas hirto e severo.
Mas desta vez era de vez. Ao olhar por cima do meu ombro terei talvez experimentado uma vivência de quase-morte. Um daqueles momentos em que, em segundos, viajamos e revemos uma vida a alta velocidade. Os altos, os baixos. Os amigos e os inimigos. Os feitos e as derrotas. As conquistas e os falhanços. Uma experiência de quase-morte diferente somente por anteceder uma nova vida que se segue à que naquele momento terminou. Viajei num vórtex de sentimentos e sensações durante o tempo que demorei a fazer uma inspiração mais prolongada de ar que sustive nos pulmões enquanto o meu interior gelava e prolongava aquele instante. Se me pedissem uma palavra para descrever aquele turbilhão talvez respondesse nostalgia. Mas uma palavra nunca chegaria. Era aquele sentido de trabalho acabado, sem remorsos. De missão cumprida na sua totalidade, sem qualquer tipo de arrependimento. De quem cresceu com o que viveu e soube retirar aquilo que precisava de tudo o que se atravessou no seu caminho. De quem está bem consigo e aceita tudo o que leva consigo e tudo o que, de consciência, optou por deixar ao longo do carreiro. Sim, acho que foi isso. Um grande sentimento de nostalgia mas sem saudade. Porque a saudade fica daquilo que se sente falta e já não se tem. Mas desta vez, o que lá deixo passará agora a ser passado porque já não me é necessário. E não o será por não ter mais lugar no meu presente. Porque o que me é de facto necessário continuará comigo, mais ou menos perto. Porque essas coisas continuarão e manterão de forma ténue aquele sentimento perfeito de orgulho próprio pelo trabalho desenvolvido e as metas alcançadas. É por isso que não tenho medo de dizer adeus. Acabei.
É hoje. É agora.
Estava um dia lindo. Um daqueles dias de Inverno em que o sol é utopia porque a realidade são telhados de nuvens escuras e pesadas que nos cobrem sem intervalos. Um daqueles dias de Inverno em que o frio nos aquece o ego, nos atravessa até aos ossos e nos arrepia à mais pequena brisa de gelo. Um daqueles dias de Inverno em que até a própria chuva, que invariavelmente tem que cair, cai de forma escassa e com medo de congelar, com pingos tímidos de vergonha.
Daquela vez a porta pareceu-me muito mais leve quando fiz força no puxador. Pareceu que deslizou sob o seu peso como que fazendo-me uma sublime e frágil vénia à medida que lhe passava a ombreira. Não me deteve nem sequer o tentou fazer, simplesmente porque desta vez sabia que não valia a pena. Fechei o casaco até ao cimo, tão decidido quanto o máximo que poderia estar em qualquer situação que alguma vez terei enfrentado.
Não tive medo do frio, do vento ou sequer da chuva que reinavam e se divertiam lá fora. Abracei-os. Puxei-os para junto de mim agradado pela companhia neste último caminho. Soube bem senti-los à minha volta, quase me levando ao colo. Olhei pelo canto do olho, por cima do meu ombro esquerdo. Lá estava ele, onde há mais de meio século sempre estivera. Onde há meia dúzia de anos eu sempre o vira. Impávido e pouco sereno. Mas hirto e severo.
Mas desta vez era de vez. Ao olhar por cima do meu ombro terei talvez experimentado uma vivência de quase-morte. Um daqueles momentos em que, em segundos, viajamos e revemos uma vida a alta velocidade. Os altos, os baixos. Os amigos e os inimigos. Os feitos e as derrotas. As conquistas e os falhanços. Uma experiência de quase-morte diferente somente por anteceder uma nova vida que se segue à que naquele momento terminou. Viajei num vórtex de sentimentos e sensações durante o tempo que demorei a fazer uma inspiração mais prolongada de ar que sustive nos pulmões enquanto o meu interior gelava e prolongava aquele instante. Se me pedissem uma palavra para descrever aquele turbilhão talvez respondesse nostalgia. Mas uma palavra nunca chegaria. Era aquele sentido de trabalho acabado, sem remorsos. De missão cumprida na sua totalidade, sem qualquer tipo de arrependimento. De quem cresceu com o que viveu e soube retirar aquilo que precisava de tudo o que se atravessou no seu caminho. De quem está bem consigo e aceita tudo o que leva consigo e tudo o que, de consciência, optou por deixar ao longo do carreiro. Sim, acho que foi isso. Um grande sentimento de nostalgia mas sem saudade. Porque a saudade fica daquilo que se sente falta e já não se tem. Mas desta vez, o que lá deixo passará agora a ser passado porque já não me é necessário. E não o será por não ter mais lugar no meu presente. Porque o que me é de facto necessário continuará comigo, mais ou menos perto. Porque essas coisas continuarão e manterão de forma ténue aquele sentimento perfeito de orgulho próprio pelo trabalho desenvolvido e as metas alcançadas. É por isso que não tenho medo de dizer adeus. Acabei.
É hoje. É agora.
segunda-feira, novembro 30, 2009
Ciclos
A vida é feita de ciclos. De muitos e tantos que, eventualmente, alguns se terão que repetir. De muitos e tantos que, provavelmente, uma boa parte nos incluirá neles. E se é verdade que pelos bons ficamos a torcer com imensa força para que voltem, pelos maus contorcemo-nos para que nunca mais os vejamos.
No entanto, por mais que nos esforcemos, eles agem quais boomerangs e retornam para nos bater com mais força do que a primeira vez. Para nos atingir à queima-roupa quando praticamente ainda não havíamos baixado a guarda da investida anterior. E voltam a ferir-nos sem dó. Sem piedade. Sem compaixão. Sem pena.
E é nestas alturas que ousamos perguntar tudo. Pôr tudo em causa e em questão. Duvidar de muitas antigas certezas. Porquê? Porque não há crença que justifique o que quer que seja. Porque não há consolo lógico ou emotivo que reitere a vontade de agarrar em algo. Resta o conformismo de aceitar porque tinha que acontecer.
Às vezes fica-se sozinho. Às vezes muito acompanhado. Nenhuma delas é boa. Como tudo na vida, o importante é arranjar um meio-termo. Mais saudável, equilibrado e consistente. Quero apoio, mas não quero falsas ajudas. Dispenso apoios de mentira. Desprezo auxílios por dever cívico. Só quero quem sempre lá esteve. Mesmo quando não precisei. Só quero quem nunca de lá saiu. Mesmo quando o podiam ter feito. Só quero quem nunca ousou mandar abaixo. Mesmo quando era o caminho mais fácil. Só quero quem teve forças para me puxar para cima. Mesmo quando o tiveram que fazer sozinhos.
Os outros... aqueles outros... Se há muito morri para eles, não espero nem quero que me venham ressuscitar agora. Isso é triste. E decrépito. E só vos mancha ainda mais o espírito nojento que possuem.
Vocês... Sei quem são. Sei onde estão. E é só de vocês que preciso. Obrigado.
No entanto, por mais que nos esforcemos, eles agem quais boomerangs e retornam para nos bater com mais força do que a primeira vez. Para nos atingir à queima-roupa quando praticamente ainda não havíamos baixado a guarda da investida anterior. E voltam a ferir-nos sem dó. Sem piedade. Sem compaixão. Sem pena.
E é nestas alturas que ousamos perguntar tudo. Pôr tudo em causa e em questão. Duvidar de muitas antigas certezas. Porquê? Porque não há crença que justifique o que quer que seja. Porque não há consolo lógico ou emotivo que reitere a vontade de agarrar em algo. Resta o conformismo de aceitar porque tinha que acontecer.
Às vezes fica-se sozinho. Às vezes muito acompanhado. Nenhuma delas é boa. Como tudo na vida, o importante é arranjar um meio-termo. Mais saudável, equilibrado e consistente. Quero apoio, mas não quero falsas ajudas. Dispenso apoios de mentira. Desprezo auxílios por dever cívico. Só quero quem sempre lá esteve. Mesmo quando não precisei. Só quero quem nunca de lá saiu. Mesmo quando o podiam ter feito. Só quero quem nunca ousou mandar abaixo. Mesmo quando era o caminho mais fácil. Só quero quem teve forças para me puxar para cima. Mesmo quando o tiveram que fazer sozinhos.
Os outros... aqueles outros... Se há muito morri para eles, não espero nem quero que me venham ressuscitar agora. Isso é triste. E decrépito. E só vos mancha ainda mais o espírito nojento que possuem.
Vocês... Sei quem são. Sei onde estão. E é só de vocês que preciso. Obrigado.
sábado, outubro 31, 2009
Agora entendo
Agora entendo o que buscas. E entendo também todo o trabalho de bastidores que fazes para lá chegares. Agora vejo como te roças e te insinuas em mundos protegidos pela ausência de luz que te denuncie. Sabes perfeitamente ao que vais e usas o mais antigo método do mundo para tentares atrair o já atraído por outrem. Cá dentro sempre o soube porque sempre o vi, mesmo quando não queria deixar que me entrasse pelos olhos. Desde sempre houve um toque especial, um inclinar ousado, um sorriso de provocação, uma frase de entrega. Uma total venda e oferta de ti para a tua pessoa. Sei o que queres e tudo o que fazes são degraus que montas para escalar para mais perto do que almejas.
Mas não te limitas a vender-te de forma descarada. E não te limitas a fazê-lo porque tens plena noção de que não chega simplesmente porque tu também não chegas. Não chegas enquanto gente ou enquanto qualquer outra coisa, por mais pequena e reles que seja. E é por isso que minas toda a sólida estrutura que te bloqueia o caminho e protege celestialmente o teu alvo. Inventas, crias e inovas temas e palavras que soltas pelo caminho. Aqui e ali, para este ou aquele. E é pelas costas, apanhando o escudo desprevenido, que infiltras o veneno na ligação que desejas romper e corromper. E vais moendo-a, incessantemente, na esperança que quebre. De podridão ou de exasperação.
Não sei se conseguirás. Espero que não. Primeiro porque o que existe é de longe melhor que tudo aquilo que queres criar à força. À força de ideais que não devem vingar neste mundo. Segundo, porque mereces perder e perder-te sem fim. Mereces a solidão que não vês que geras em tudo o que tocas. Repulsas. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão luzes para iluminar a escuridão em que exibes a tua nudez de corpo e principalmente de alma para convencer alguém de que serves para ser degustada. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão ecos de som que levarão as tuas ferroadas aos ouvidos de quem tem o direito de as voltar a enfiar a murro na tua boca.
Hás-de continuar a viver nessa amargura de vida. E caso queiras subir nessa amargura de vida, não será certamente à custa dos que se encontram acima de ti e que têm mais poder que tu. Ainda vais ter que rastejar muito...
Mas não te limitas a vender-te de forma descarada. E não te limitas a fazê-lo porque tens plena noção de que não chega simplesmente porque tu também não chegas. Não chegas enquanto gente ou enquanto qualquer outra coisa, por mais pequena e reles que seja. E é por isso que minas toda a sólida estrutura que te bloqueia o caminho e protege celestialmente o teu alvo. Inventas, crias e inovas temas e palavras que soltas pelo caminho. Aqui e ali, para este ou aquele. E é pelas costas, apanhando o escudo desprevenido, que infiltras o veneno na ligação que desejas romper e corromper. E vais moendo-a, incessantemente, na esperança que quebre. De podridão ou de exasperação.
Não sei se conseguirás. Espero que não. Primeiro porque o que existe é de longe melhor que tudo aquilo que queres criar à força. À força de ideais que não devem vingar neste mundo. Segundo, porque mereces perder e perder-te sem fim. Mereces a solidão que não vês que geras em tudo o que tocas. Repulsas. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão luzes para iluminar a escuridão em que exibes a tua nudez de corpo e principalmente de alma para convencer alguém de que serves para ser degustada. Se houver justiça em tudo aquilo que te envolva, existirão ecos de som que levarão as tuas ferroadas aos ouvidos de quem tem o direito de as voltar a enfiar a murro na tua boca.
Hás-de continuar a viver nessa amargura de vida. E caso queiras subir nessa amargura de vida, não será certamente à custa dos que se encontram acima de ti e que têm mais poder que tu. Ainda vais ter que rastejar muito...
sexta-feira, setembro 11, 2009
Existência inexistente

A vida que vives não é tua. É provável que nunca tenha sido. Não é esse o teu fato e o papel que tens que representar neste palco cuja plateia te observa atentamente. Não é essa a tua árvore sob a qual dormes à sombra. Estás enganada, errada e equivocada. Julgas que são esses os teus princípios, gostos e preferências, embora eles não passem de uma ilusão que te foi sendo passada ao longo dos anos pelo modelo que sempre quiseste ser e que foste absorvendo, qual esponja, sem critério nenhum de racionalidade ou selecção. Limitaste-te a encarnar alguém que não és e que a tua própria pessoa te obrigou a ser sem pedir permissão. És um ser dentro de ti contra a tua própria vontade inconsciente, lutando sem força e resignadamente para te livrares daquilo que para sempre serás.
Para além de não conseguires ver-te no espelho sem que reflictas uma outra face desconhecida da tua suposta existência própria, obrigas-te a viver a vida de outros. De outros que também desconheces e que julgas deuses sagrados e incólumes. Deuses que adoras incessantemente no teu altar de juízos que julgas íntegro mas que não é mais que uma fantasia que a tua não-personalidade constrói escondida dos olhos que não tens e que só vêem aquilo que tetricamente te deixam e lhes convém. E por serem deuses aqueles que veneras, absorves também tudo o que estas almas supremas te indicam. Segues cegamente sem o mínimo desacato tudo o que te ordenam e rejubilas por te vergares desse modo e por cumprires a preceito todos os seus preconceitos, mesmos que vergues a tua vertical integridade. E o resultado não pode ser mais prejudicial para ti pois passas também tu a carregar os preconceitos e valores alheios. Preconceitos e valores que só te descaracterizam ainda mais e que só ajudam a tapar mais os deuses das suas responsabilidades, carregando-as directamente para ti e, por vezes, só para ti. Porque agora és também tu que passas a responder por actos que não seriam teus de raiz e que incorporaste de forma tão profunda que já não te saem da carne. E se estão desta forma aderentes a tudo o que tu és, a culpa tem que ser necessariamente da tua pessoa. Uma pessoa demasiado ingénua, com uma péssima auto-estima, uma baixíssima auto-crítica racional e uma inexistente capacidade de pensar o que existe à volta e que cai sobre ti como uma ave de rapina sem dó de te dilacerar com as grandes garras curvas e esfolar com o grotesco bico afiado.
Hoje já não consigo caracterizar a tua natureza. Não sei se é boa ou se é má. Se é talvez um misto das duas. O mais provável é que não tenhas natureza simplesmente porque não existes enquanto pessoa individual mas sim como o resultado de tudo o que te injectaram pelas costas. E foi tanto o que essas agulhas introduziram no teu ser, que agora já nada resta do pouco que poderia existir com o teu nome. Só consegues ser tu sendo outros. E isso não é bom. Isso é sempre o princípio do nosso fim. Quando deixamos de ter personalidade própria, quando deixamos de ter gostos, quando deixamos de assumir escolhas... É aí que começamos a deixar de existir.
Estás-te a esfumar.
terça-feira, setembro 01, 2009
Força
Da primeira vez disseste que seria mais fácil que um golo do Jardel de cabeça.
Depois da terceira vez, continuo a achar que não é bem assim. Mas o que contou foi a tua intenção. E essa deu-me mais força que qualquer verdade absoluta que me pudesses falar.
Depois da terceira vez, continuo a achar que não é bem assim. Mas o que contou foi a tua intenção. E essa deu-me mais força que qualquer verdade absoluta que me pudesses falar.
sexta-feira, agosto 28, 2009
Veneno
Não posso ser mais sincero quando digo que não sei porque o fizeste. Não tenho mesmo a mais pálida das ideias de modo a que o consiga justificar. Como foste capaz? Quero que me digas. Diz-me como é que foste capaz sua grandessíssima cabra de merda... Explica-me como tiveste a audácia de prostituíres sentimentos e relações de uma forma tão banal e vulgar. Como conseguiste tornar corriqueiro algo que tanto do sagrado se aproxima? É tudo tão surreal e retirado de um contexto que não existe em lado algum. O enredo e as personagens são nuvens de fumo cuja cor nem consigo discernir do nevoeiro denso que as envolve.
Sabes... Ninguém te merece. E tu não mereces ninguém também. De nenhuma maneira. E tu sabe-lo porque o sentes quando se crava bem fundo na tua pele. No teu cérebro. Principalmente no teu coração. Não jogas limpo e preferes andar por trás, qual animal medroso escondido e minimalescamente agachado atrás dos calcanhares de quem te tem num altar para assim poderes morder e pisar quando mais te apetece e quando menos te esperam. Porque nunca te esperam. Porque nunca conseguem ver. Porque nunca querem ver.
Jamais algo que eu possa ter ou não feito poderá servir de pré-pagamento para o recibo que me passaste. Só algo que exista somente no teu mundo. Nesse mundo de valores corrompidos e fúteis, onde o que interessa é a aparência e o objectivo a curto alcance. Onde a vista só enxerga aquilo que dá prazer no instante e que satisfaz os teus mais profundos impulsos decrépitos, incoerentes e sem nexo. Impulsos que vestes de morais, mas com roupas tão andrajosas que não chegam para cobrir o odor putrefacto que sob elas exala. Ages no momento como quem quer desesperadamente apreender algo ou alguém, com vista a prendê-lo a uma conversa de esquina que de pior e falso só tem menos que a alma que não tens. És a primeira pessoa a trair a tua própria pessoa que não existe. Porque não olhas para ti? Porque não falas de ti? Porque não assumes as tuas estórias? Porque não admites os teus pecados? Porque não os bradas aos céus? Porque não os bradas como fazes aos dos outros, mesmo que inventados por essa mente perversa e corrompida por sistemas desconectados de toda a ética? Porque não cantas a tua vida bem alto?
É tão mais fácil falar dos outros. Tão mais fácil não querer falar de ti. Porque aí terias tanto para falar. Porque aí talvez deixasses de ter alguém para te ouvir. Porque todos os erros que os outros cometeram, tu já os cometeste também. E cometeste-os mais vezes. E cometeste-os de uma maneira mais vil. E cometeste ainda aqueles que nem se ousam pronunciar. És um nojo. És pior que isso. És um castelo de cinza à espera de uma brisa que te sopre ao chão. Ou para lado nenhum. Um castelo que hoje só se deveria manter de pé colado pela saliva cuspida por todos aqueles que te deveriam desprezar do alto de onde os tentas, impacientemente, tirar.
Sabes... Ninguém te merece. E tu não mereces ninguém também. De nenhuma maneira. E tu sabe-lo porque o sentes quando se crava bem fundo na tua pele. No teu cérebro. Principalmente no teu coração. Não jogas limpo e preferes andar por trás, qual animal medroso escondido e minimalescamente agachado atrás dos calcanhares de quem te tem num altar para assim poderes morder e pisar quando mais te apetece e quando menos te esperam. Porque nunca te esperam. Porque nunca conseguem ver. Porque nunca querem ver.
Jamais algo que eu possa ter ou não feito poderá servir de pré-pagamento para o recibo que me passaste. Só algo que exista somente no teu mundo. Nesse mundo de valores corrompidos e fúteis, onde o que interessa é a aparência e o objectivo a curto alcance. Onde a vista só enxerga aquilo que dá prazer no instante e que satisfaz os teus mais profundos impulsos decrépitos, incoerentes e sem nexo. Impulsos que vestes de morais, mas com roupas tão andrajosas que não chegam para cobrir o odor putrefacto que sob elas exala. Ages no momento como quem quer desesperadamente apreender algo ou alguém, com vista a prendê-lo a uma conversa de esquina que de pior e falso só tem menos que a alma que não tens. És a primeira pessoa a trair a tua própria pessoa que não existe. Porque não olhas para ti? Porque não falas de ti? Porque não assumes as tuas estórias? Porque não admites os teus pecados? Porque não os bradas aos céus? Porque não os bradas como fazes aos dos outros, mesmo que inventados por essa mente perversa e corrompida por sistemas desconectados de toda a ética? Porque não cantas a tua vida bem alto?
É tão mais fácil falar dos outros. Tão mais fácil não querer falar de ti. Porque aí terias tanto para falar. Porque aí talvez deixasses de ter alguém para te ouvir. Porque todos os erros que os outros cometeram, tu já os cometeste também. E cometeste-os mais vezes. E cometeste-os de uma maneira mais vil. E cometeste ainda aqueles que nem se ousam pronunciar. És um nojo. És pior que isso. És um castelo de cinza à espera de uma brisa que te sopre ao chão. Ou para lado nenhum. Um castelo que hoje só se deveria manter de pé colado pela saliva cuspida por todos aqueles que te deveriam desprezar do alto de onde os tentas, impacientemente, tirar.
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