quarta-feira, julho 21, 2010

Eu? Sim...

Não achas que há alguma coisa errada? Não sentes que há algo a menos? E isso não te incomoda? Não fraquejas à falta de um suporte? Perguntas-te porquê? Desabafas com alguém? Não te amarras ao orgulho? Não te restringes às tuas leis? Não te estagnas e dilaceras assim? Reconheces onde pisaste ao lado? Reconheces quando pisaste demais? Pensas nisso com frequência? Consomes-te por vezes? Irritas-te e revoltas-te a tempos? E depois, recordas-te? Enterneces-te de olhos fechados? Percorres letras construídas? Decalcas de cor sons memorizados? E aí, não vês a incoerência? Não procuras a coerência para voltar a esse passado todo?

E não tens saudades de esse passado todo?

terça-feira, junho 29, 2010

Definições VIII

Felicidade: objectivo que se atinge após percorrer um caminho por vontade própria e simultaneamente por ausência de interferência de outros.

sábado, maio 22, 2010

Gosto II

Gosto de dormir pouco. Gosto de estar acordado. Gosto de aproveitar o tempo que estou acordado. Gosto de comer depressa. Gosto de ter pressa. Gosto de ser pontual. Gosto que os outros sejam pontuais. Gosto de andar. Gosto ainda mais de correr. Gosto quando ainda tenho pernas para o fazer. Gosto de fingir que jogo futebol. Gosto de marcar golos. Gosto daquele momento em que, depois de marcar o golo, olho para os meus pés e fico contente com o que acabaram de fazer. Gosto de ver jogos de ténis e de snooker. Gosto de ver ciclismo. Gosto de andar de bicicleta. Gosto de "dar o litro" em cima da bicicleta. Gosto de ir longe. Mais longe ainda que isso. Gosto de me superar. Gosto de dar sempre o máximo. Gosto de me ganhar. Gosto de ganhar. Gosto de perder quando sei que perco bem. Gosto de ti. Gosto dele e dela. Gosto de vocês. Gosto de poupar dinheiro. Gosto de o usar correctamente. Gosto do Futebol Clube do Porto. Também gosto do Vitória Futebol Clube. Gosto do preto, do branco, do azul e do castanho. Gosto de vestir camisas com calças de ganga. Já gosto de calções. Gosto de calçar ténis. Gosto de andar descalço. Gosto da praia vazia. De preferência do Inverno. Gosto do mar em rebuliço. Gosto do mar em rebuliço a desfazer-se na areia. Gosto do mau tempo. Com frio, chuva, vento e trovoadas. Gosto da noite. Gosto do silêncio das estrelas à noite. Gosto de escrever. Gosto de escrever com canetas de aparo. Gosto que leiam o que eu escrevo. Gosto de ler o que os outros escrevem. Gosto de fazer e receber surpresas. Gosto de uma carta com um texto sincero. Gosto de tocar piano. Gosto simplesmente de estar sentado ao piano. Gosto de música. Gosto das músicas que me provocam um arrepio na coluna. Gosto de mostrar as minhas emoções. Gosto quando sou sincero e me emociono. Gosto quando fico com a voz embargada de saudades e nostalgia. Gosto de animais. Gosto de gatos. Gosto de Shar-Peis. Gosto de medicina. Gosto muito de história e arqueologia. Gosto de Portugal. Gosto das minhas terras. Gosto de ter tudo arrumado. Gosto de dar uma ordem lógica a tudo. Gosto de saber. Gosto de jantar e ficar a falar por saber que não tenho nada que fazer depois. Gosto de fazer noitadas em boa companhia. Gosto de discussões. Melhor. Gosto de trocas de ideias. Gosto que me respeitem a opinião. Gosto de dar a minha opinião. Gosto de ser feliz. Gosto de me rir. Gosto de fazer os outros rir. Gosto de ser diferente. Gosto de ser como sou. Gosto de mim.

domingo, abril 18, 2010

Vultos escuros

Sei porque voaste. Sei porque abriste as asas e tentaste fugir do teu recanto. Julgaste que, lá longe, deixarias os vultos escuros que te assombram bem distantes de ti.

Quando lá chegaste, não encontraste o conforto que buscavas. Não identificaste alguma diferença em relação ao que havias deixado, mesmo quando invocaste anjos brancos de envergadura larga para te proteger. Enganaste-te. Quando lá chegaste, já lá eles estavam à tua espera. Era como se os vultos escuros tivessem adivinhado o teu destino predestinado só para te penitenciar quando arquitectaste aquele que sabias ser o teu derradeiro plano de escape.

Mesmo lá longe, são esses vultos escuros que se mantêm bem pertinho, circundando-te de forma sorrateira e abafante, gelando o vapor de água que expiras e fazendo-o cair como farpas nos teus próprios pés. São eles que te fazem companhia nas noites em que a tua pessoa está abandonada e implacavelmente vergada debaixo dos lençóis de uma cama que não te embala. São eles que te amarelam o sorriso quando, por fugazes momentos, foges da realidade e eles rompem pelo teu pensamento lentificadamente apagado e quase morto. São eles que te tiram o gozo da mais pequena alegria que achas ser capaz de alcançar quando de forma sarcástica eles te dão a sensação de estares livre. São eles que te toldam a imagem quando alguém olha para ti através dos teus olhos verdadeiramente vazios e que eles não te deixam voltar a encher. São eles que apagam as luzes da rua quando caminhas sem destino entre casas a dormir e te fundem com o nada da escuridão que preenche o ar. São eles que te geram essa dor ardentemente agonizante quando te crucificam de forma invertida perante todos os pecados cujo teu corpo não consegue esconder atrás de si. São eles que te assassinam os sonhos e fazem brotar pesadelos que conheces como reais, só para de seguida acordares num sobressalto e tomares consciência de que não há diferença entre o sono e a vigília. São eles que fazem a tua sombra que não obedece aos mandamentos do teu corpo e jocosamente enganam os teus sentidos, criando sons, imagens, sabores, cheiros e objectos que te conduzem à insanidade louca de onde não te consegues libertar. São eles que não se espantam quando gritas em surdina o que se evapora da tua alma quando por fim cedes em desamparo perante a incapacidade de expressares a mínimo esboço de vontade própria.

Por mais que tentes, não consegues cavar um fosso onde os enterres ou que os impeça de te alcançar. Porque esses vultos escuros não vivem contigo. Eles vivem em ti. Em tudo o que és. Estão entranhados em tudo o que é vida em ti e em tudo o que é morte que causas. E só desaparecerão quando também tu te eclipsares.

quarta-feira, abril 07, 2010

Definições VII

Amor: tu.

domingo, março 28, 2010

Quando formos grandes

Já imaginaste como tudo será quando formos grandes? Quando formos maiores e mais crescidos?

Será que ainda nos vamos conhecer? Ainda seremos capazes de trocar palavras de conforto, carinho e compreensão? Se nos afastarmos, teremos a habilidade de nos reconhecer por trás do tempo que passou? Teremos orgulho daquilo que cada um de nós se tornou? E daquilo que o outro se tornou? Ou será que nos envergonharemos perante todas as nossas esperanças e desejos actuais? Teremos sido capazes de corrigir os nossos defeitos ou simplesmente de os refinar mais? Encontraremos a nossa outra melhor metade com que sempre sonhámos? Será alguém hoje para nós um desconhecido ou aquela pessoa que sempre aqui esteve sem darmos pela sua presença e que futuramente será o brilho do nosso ser?

Quando formos grandes, teremos perdido a capacidade de chorar? Ou será que o continuaremos a fazer de cabeça erguida sempre que o peso da vida nos pesar demais? Teremos sarado feridas ou somente herdado mais cicatrizes de guerras que agora não descortinamos? Conseguiremos ainda sentarmo-nos lado a lado, reconhecendo a amizade do outro num simples encostar mútuo da cabeça no ombro que atraca ao lado? Teremos, ao invés disso, minado por completo qualquer réstia de ligação humana que existisse? Saberemos ouvir o silêncio que nos enche a alma quando está vazia, sem necessidade de clamar por ajuda? Quando fecharmos os olhos, ainda saberemos onde o outro está mesmo no escuro?

Saberemos saborear o prazer das pequenas coisas, mesmo que elas se repitam a ciclos? Ou conformar-nos-emos numa toca isolada, desesperando pelo crescimento caduco e nada perene? Seremos capazes de ainda procurar as pontes que nos unem e os vales que nos afastam, mas que todos juntos criam esta dualidade una? Ansiaremos sempre ainda por mais um pedaço de vida com o outro e com quem queira connosco degustar o tempo? Antes seremos derrotados por utópicas outras vidas que de nós florescerão e nos consumirão as atenções? Seremos vencidos pela gula e soberba de quem se deixou vencer a si próprio? Ou continuaremos a encontrar o caminho de volta a casa, por entre fragas e matas?

Agora, aqui, não sei se quero crescer. Não me urge o desconhecido quando o que tenho e tacteio me é tão real e tão seguro. Tão presente.


Já imaginaste como tudo será quando formos grandes? E quando formos grandes, será que continuaremos a lembrar do tempo em que éramos pequenos? Às vezes acho que o melhor seria ficarmos para sempre suspensos num marasmo que só nos prolongasse este momento melancólico que é poder partilhar este pensamento inventivo com alguém que não sabemos onde estará amanhã. Que talvez já não exista quando crescermos.

domingo, fevereiro 28, 2010

Despedida

Uma mão que se abre num aceno, com os dedos esguios estendidos a medo. Outra mão que se enrola num aperto cordial ousando demonstrar alguma força que já não tem. Um abraço que envolve um tronco de tal modo sôfrego que já não respira.

Há momentos em que a mente se quer despedir. Alturas em que o conforto não chega de onde se queria e a esperança é vã memória dos tempos que se sonharam e nunca foram realidade. O corpo não tem outra solução que não obedecer a esse desígnio imperial imposto pela voz que o comanda. Contrariado ou não, cabe-lhe dar forma a algo muito mais complexo que uma simples palavra ou sentimento. Porque as despedidas são um ciclone de emoções contraditórias e vontades tantas vezes desconexas e incoerentes entre si, mas que acabam por se fundir em algo tão objectivo e concreto como um adeus.

Uma lágrima que se desprende num fio de ouro caduco e fugaz. Um nó na garganta incómodo que se disfarça mal quando se engole em seco aquilo que se quer, mas não se pode dizer. Ou um aperto no peito, que aperta algo que já não existe e cuja existência se questiona sem cessar.

Será que escolhemos poder ir embora? Serão os outros que nos deixam ir embora? Ou serão os outros que vão e ficamos nós sempre no lugar onde estivemos e de onde nunca sairemos? Uma despedida é sempre subjectiva e relativa. Talvez não interesse quem parta e quem permita partir. Talvez nem interesse saber se isso interessa. Porque, no final das contas, o que resta é o abandono que ardeu lentamente de forma penosa enquanto nunca se deu por ele. Um fogo que se alimentou de muito mais que o oxigénio que necessitaria para respirar e que transgrediu todas as barreiras que o bom senso deveria impor.

Um passo tímido que se começa em direcção a um novo rumo, talvez cópia do que agora se nega. Um último desviar no olhar incrédulo com a dor cabal do que já não capta. Uma certeza da decisão que se incorpora por fim, quando finalmente tudo se torna óbvio.

Foi a ausência. A inexistência de uma presença que se conjecturou sob ideais e premissas dúbias descritas em fábulas e romances irreais. Porventura surreais. Foi a dor do esquecimento. Da lembrança de permitir o abandono tão concreto e visível que quase chega a ser sorrateiro. Porventura matreiro. Foi a incongruência. A coerência de usar do poder conforme fazia gosto ao uso do abuso de querer tudo sem escrúpulos. Foi tudo isso. Um esgar tétrico e silencioso que se apagou cordialmente entre ambas as partes sem combinação ou contrato prévios. Uma despedida da qual todos são conscientes e coniventes. E que, mesmo sem nunca o expressarem com a voz que a natureza concedeu a quem dela faz uso, há muito ansiavam. Com uma força tão honesta quanto cruel.

sábado, janeiro 30, 2010

Intenso

Gosto de viver no máximo. Não que isto queira dizer que goste de correr riscos e entrar em aventuras. De maneira nenhuma. Gosto de caminhos seguros e bem definidos, onde a minha margem de erro é sempre a menor possível e, sempre que possível, manobrada ao meu jeito. Apesar disso, gosto de fazer esses caminhos no máximo das minhas capacidades. Gosto de investir tudo em mim, em tudo o que faço e naqueles que me acompanham nestas andanças. Dou tudo de mim e do que tenho em mim para que tenha os melhores resultados possíveis e para ajudar aqueles que tenho à minha volta e que estimo mais do que por vezes me estimo a mim próprio.

E se o faço de forma tão gigante quando gosto, também o faço quando detesto. Gosto de detestar e odiar com todas as minhas forças. Chateio-me e expludo com a maior das mais mortais energias, disparando toda a pólvora que posso arranjar. Não tolero valores sem valor, moralidades imorais, verdades mentirosas e erros descuidados feitos de propósito. E se não os tolero, vibro com força na por vezes vã tentativa de os implodir com a minha vontade enorme e avassaladora.

Sou intenso. Intenso em tudo o que faço. Quando amo ou quando desprezo. Quando procuro ou quando repulso. Para o bem e para o mal, dou 100% por tudo aquilo que eu acho que merece a pena. Porque não gosto de ser acusado de falta de empenho. Porque para mim é desrespeito não darmos tudo o que temos para oferecer. Vivo tudo, sinto tudo, absorvo tudo. Da forma mais intensa que possam imaginar.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Dias perfeitos

Hoje apetece-me ouvir o brilho das estrelas lá no céu, longínquas e fora do nosso alcance. Quero cheirar o som do sopro da brisa que voa sem amarras e sem destino. Tenho vontade de saborear o cheiro do teu perfume quando te cruzas comigo bem perto. Anseio por ver o calor aconchegante e terno da tua cabeça encostada no meu ombro ao fim da noite. E por fim, desejo tocar o sabor do teu beijo antes de adormecermos juntos sem nos preocuparmos com nada.

Felizmente que ainda há dias perfeitos...

domingo, dezembro 20, 2009

É agora

Abrir aquela porta e senti-la e ouvi-la fechar-se atrás de mim pela última vez é algo que para sempre me ecoará na memória.

Estava um dia lindo. Um daqueles dias de Inverno em que o sol é utopia porque a realidade são telhados de nuvens escuras e pesadas que nos cobrem sem intervalos. Um daqueles dias de Inverno em que o frio nos aquece o ego, nos atravessa até aos ossos e nos arrepia à mais pequena brisa de gelo. Um daqueles dias de Inverno em que até a própria chuva, que invariavelmente tem que cair, cai de forma escassa e com medo de congelar, com pingos tímidos de vergonha.

Daquela vez a porta pareceu-me muito mais leve quando fiz força no puxador. Pareceu que deslizou sob o seu peso como que fazendo-me uma sublime e frágil vénia à medida que lhe passava a ombreira. Não me deteve nem sequer o tentou fazer, simplesmente porque desta vez sabia que não valia a pena. Fechei o casaco até ao cimo, tão decidido quanto o máximo que poderia estar em qualquer situação que alguma vez terei enfrentado.

Não tive medo do frio, do vento ou sequer da chuva que reinavam e se divertiam lá fora. Abracei-os. Puxei-os para junto de mim agradado pela companhia neste último caminho. Soube bem senti-los à minha volta, quase me levando ao colo. Olhei pelo canto do olho, por cima do meu ombro esquerdo. Lá estava ele, onde há mais de meio século sempre estivera. Onde há meia dúzia de anos eu sempre o vira. Impávido e pouco sereno. Mas hirto e severo.

Mas desta vez era de vez. Ao olhar por cima do meu ombro terei talvez experimentado uma vivência de quase-morte. Um daqueles momentos em que, em segundos, viajamos e revemos uma vida a alta velocidade. Os altos, os baixos. Os amigos e os inimigos. Os feitos e as derrotas. As conquistas e os falhanços. Uma experiência de quase-morte diferente somente por anteceder uma nova vida que se segue à que naquele momento terminou. Viajei num vórtex de sentimentos e sensações durante o tempo que demorei a fazer uma inspiração mais prolongada de ar que sustive nos pulmões enquanto o meu interior gelava e prolongava aquele instante. Se me pedissem uma palavra para descrever aquele turbilhão talvez respondesse nostalgia. Mas uma palavra nunca chegaria. Era aquele sentido de trabalho acabado, sem remorsos. De missão cumprida na sua totalidade, sem qualquer tipo de arrependimento. De quem cresceu com o que viveu e soube retirar aquilo que precisava de tudo o que se atravessou no seu caminho. De quem está bem consigo e aceita tudo o que leva consigo e tudo o que, de consciência, optou por deixar ao longo do carreiro. Sim, acho que foi isso. Um grande sentimento de nostalgia mas sem saudade. Porque a saudade fica daquilo que se sente falta e já não se tem. Mas desta vez, o que lá deixo passará agora a ser passado porque já não me é necessário. E não o será por não ter mais lugar no meu presente. Porque o que me é de facto necessário continuará comigo, mais ou menos perto. Porque essas coisas continuarão e manterão de forma ténue aquele sentimento perfeito de orgulho próprio pelo trabalho desenvolvido e as metas alcançadas. É por isso que não tenho medo de dizer adeus. Acabei.

É hoje. É agora.