Já não sei construir castelos de areia. Perdi a capacidade de empilhar aqueles pequenos pedaços sob a forma de muralha com torreões e ameias. Desaprendi e desaprendeste-me. Desensinaste-me. Deslembraste-me. Parecia tão fácil na altura, que talvez nesse tempo não tenha dedicado o suficiente para o apreender. Talvez me falte a água que une a areia como cola invisível que dura até evaporar. Falta-me a água gelada do mar. Falta-me a água porque está agora tudo seco. Seco de solidão e de desamparo.
Sento-me na praia. Apanho um punhado do areal que de seguida me escorre por entre as fendas dos dedos. Como quem foge. Como quem não quer ficar. Porque foges? Para onde queres ir? Onde buscarás o líquido que te conferirá a união que desejas? Nesta praia já não faço castelos de areia. Não se consegue fazer nada com esta areia desprovida de marés. Não há quem a enrosque e a embale, embevecendo o olhar de transeuntes que se detêm por entre passos mal calculados.
Porque não me mostras de novo? Talvez tenhas ido atrás da chuva. Por entre o negrume de céus fechados em busca de argamassa para que se ergam novos edifícios de brincadeira. Porque aqui o assunto é sério e faltou-te seriedade para que pegasses nas minhas mãos e lhes mostrasses como era moldar uma parede, um fosso, uma torre de menagem. Faltou-te intenção a mais e palavras de menos para que nos compreendêssemos na perfeição e não criássemos uma barreira de penumbras dúbias onde ora falta areia, ora falta água. Onde já não se constrói nada. E onde aquilo que de lá sai, mais se assemelha a uma destruição mal contida que abala os castelos ainda estoicamente de pé. Tal qual um pé de alguém distraído que, sem querer, tropeça no pequeno castelo de areia de fantasia do petiz.
Este é o meu Atlas.O meu Atlas Deus que carrega o meu mundo. O meu Atlas que sofre por sonhos. O meu Atlas que, mesmo sofrendo por vezes, é feliz por sonhar.
domingo, junho 26, 2011
terça-feira, março 29, 2011
Metro
Gare do Oriente. É cedo. É pelo menos cedo para mim que não devia por aqui andar a estas horas. 8:32 marca um daqueles letreiros electrónicos que estão constantemente a emitir mensagens de interesse duvidoso ao sabor do piscar de vários LEDs laranjas. "O Metro não funcionará amanhã das 6:00 às 11:30" passa agora a correr como que largando uma bomba que se deseja que ninguém veja só para que fique com a manhã do dia seguinte toda virada do avesso. Apesar de ser um mero dia de semana, poucas pessoas hoje se encontram a circular nestes acessos subterrâneos, talvez fruto das férias de Verão para as quais a crise deveria roubar dinheiro, mas que acabam sempre passadas em praias paradisíacas num país latino de um continente além-Atlântico.
Felizmente não preciso de me preocupar com o bilhete. Vantagens e mordomias dos pré-comprados. Sempre se evitam as filas para a única máquina que existe a funcionar pois as outras, cheias de chico-espertice, parecem arranjar todas as desculpas para ficarem não-operacionais. Avarias, falta de troco, cartões electrónicos não aceites ou então só porque sim. Ou porque não. Devem-se combinar entre elas e montam escalas de turnos para se irem mantendo jovens e imaculadas. E para moer a já pouca paciência de quem (des)espera, para o qual também contribuem a declarada azelhice de muitos transeuntes e a sagaz vontade de nunca quererem aprender a funcionar com as malfadadas maquinetas. O que vale é que existem sempre funcionários imensamente disponíveis para ficar sentados atrás de um qualquer balcão a rir da inoperância alheia enquanto os seus roliços traseiros engordam enfiados num recosto fofinho que não existe disponível para mais nenhum.
Torniquetes. Passa-se o bilhete e voilá. Abre-te sésamo. Por vezes é preciso quase ter aptidões atléticas olímpicas para transpor tal barreira, tamanha não é a necessidade de coordenação para fazer passar toda a bagagem no (curto) espaço de tempo em que as portas se tornam permeáveis. E ficar lá entalado? Um regozijo só recomendável para os outros porque dói e incomoda que se farta.
Aguardo. Encosto-me a uma parede com medo que algum de nós (eu e a parede) caia. Bocejo. Ainda tenho sono. Diz agora o painel que faltam 4 minutos e 51 segundos para as metálicas carruagens terminarem a manobra de troca de linha e recomeçarem o percurso que já conhecem como a palma dos seus carris. Os passageiros acumulam-se junto à linha, numa amálgama de diversidade que se torna homogénea graças à pouco dissipada apatia e ausência de interacção que este tipo de transportes colectivos sempre acarreta. O som aproxima-se. Apita a avisar da chegada como se o rosnar constante do vento a ser arrancado não chegasse para o anunciar. Ainda antes de parar, já todos se aglomeraram à beira do local onde julgam que a porta se abrirá. E desengane-se quem pense que se trata de um acto aleatório, pois facilmente se reconhecem os profissionais desta actividade ao se comprovar a sua perícia milimétrica.
Já lá dentro, o importante é encontrar um buraquinho para nos sentarmos, embora seja sempre preferível deixar passar aquelas velhas vizinhas (ou vizinhas velhas) com dois, três, quatro ou mais sacos com um mundo de cheio de nada no seu interior. Parecem formigas atarefadas em busca do lugar que julgam eternamente seu e para o qual ninguém tem sequer permissão de colocar a mirada em cima. Ao longe já oiço o inconfundível som de um acordeão, surpreendentemente tocado com alguma mestria. Em cima do instrumento que o jovem carrega, equilibra-se um pequeno cachorrinho com o fundo de uma garrafa de plástico para que nele se coloquem moedas de esmola. Não sei por quem tenho mais compaixão. Se do indefeso animal que passa o dia inteiro com um fio entre os dentes a segurar pedaços de metal dentro de um recipiente ou da ainda ingénua (ou se calhar não) criança que dá azo ao seu dom para alimentar vícios dos pais que a exploram...
Enquanto as vizinhas trocam agora impressões sobre as modas actuais das relações amorosas dos seres humanos (que confusão lhes faz os "ajuntamentos" sem casamento e aquela coisa nova dos "homem-sexuais"), um jovem parzinho de namorados enrosca as mãos e troca sorrisos de quem acabou de descobrir o quão bem sabe uma brutal descarga hormonal logo pela manhã. Trocam palavras e frases muitas vezes sem nexo para alguns ouvintes incautos, partilham beijos e outras carícias a cargo de uma ou outra mão que afagam carinhosamente as faces da sua outra metade. Ele, mais alto que ela, dá-lhe o ombro para que ela encoste a cabeça e se aninhe no pescoço dele, sentindo-se protegida de perigos que agora não existem mas que a conforta mesmo assim. "É favor não forçar as portas!". Certamente alguém mais voluntarioso que se atirou já após os silvos sonoros que indicam o fecho iminente das portas e que deixou uma mochila ou um pé presos entre elas.
Ao fundo, sozinho, um homem de meia-idade. Olha impacientemente para o relógio, alternando com movimentos desinquietantes no telemóvel. Obviamente espera por algo ou está atrasado para alguma coisa. Se calhar as duas. O eterno Português vive sempre na ânsia de concretizar sonhos e na sofreguidão de nunca chegar a tempo de os atingir. Escorrem-lhe gotas de suor pela testa. Semblante fechado. As vizinhas dão por ele. Murmuram um sussurro imperceptível, mas que ele percebe ser para ele. Cora. Atrapalha-se. Deixa cair o telemóvel quando de repente começa a vibrar nas suas mãos. Apressa-se a apanhá-lo e lê o que o ecrã lhe escrevinha. Sorri. Levanta-se e sai na próxima estação. Haja dias felizes para alguém.
"São Sebastião. Estação Terminal". Mesmo que não quisesse, é aqui que tenho que sair. Fim de linha. Literalmente. Mais uma vez, dou por mim a ser atropelado pelas ágeis velhas vizinhas, a quem somente interessa exercitar a língua e os belos braços que derriçam com força que aqueles singelos corpos parecem não ter. Deixo-as sair. "Take care of your belongings when entering or exiting the train". Instintivamente as vizinhas olham para as suas malas e remexem-lhes o interior, assegurando-se que têm tudo consigo. Mal sabem elas que esse é somente o primeiro sinal para denunciar o local onde guardam aquilo que de maior valor transportam consigo... Quando me aproximo do torniquete, um jovem algo tímido aborda-me e pergunta-me num tom pianíssimo: "Posso passar atrás de si?". Enquanto lhe aceno afirmativamente, esboço uma expressão alegre de condescendência por todos aqueles (incluindo eu próprio) que, com a idade daquele rapaz, também alguma vez ousaram fazer gazeta aos bilhetes dos transportes públicos. É talvez um dos primeiros actos de rebeldia de muitos dos adultos de hoje.
Subo as escadas e saio para a rua. Doem-me os olhos. Não vejo nada. Está sol lá fora.
Felizmente não preciso de me preocupar com o bilhete. Vantagens e mordomias dos pré-comprados. Sempre se evitam as filas para a única máquina que existe a funcionar pois as outras, cheias de chico-espertice, parecem arranjar todas as desculpas para ficarem não-operacionais. Avarias, falta de troco, cartões electrónicos não aceites ou então só porque sim. Ou porque não. Devem-se combinar entre elas e montam escalas de turnos para se irem mantendo jovens e imaculadas. E para moer a já pouca paciência de quem (des)espera, para o qual também contribuem a declarada azelhice de muitos transeuntes e a sagaz vontade de nunca quererem aprender a funcionar com as malfadadas maquinetas. O que vale é que existem sempre funcionários imensamente disponíveis para ficar sentados atrás de um qualquer balcão a rir da inoperância alheia enquanto os seus roliços traseiros engordam enfiados num recosto fofinho que não existe disponível para mais nenhum.
Torniquetes. Passa-se o bilhete e voilá. Abre-te sésamo. Por vezes é preciso quase ter aptidões atléticas olímpicas para transpor tal barreira, tamanha não é a necessidade de coordenação para fazer passar toda a bagagem no (curto) espaço de tempo em que as portas se tornam permeáveis. E ficar lá entalado? Um regozijo só recomendável para os outros porque dói e incomoda que se farta.
Aguardo. Encosto-me a uma parede com medo que algum de nós (eu e a parede) caia. Bocejo. Ainda tenho sono. Diz agora o painel que faltam 4 minutos e 51 segundos para as metálicas carruagens terminarem a manobra de troca de linha e recomeçarem o percurso que já conhecem como a palma dos seus carris. Os passageiros acumulam-se junto à linha, numa amálgama de diversidade que se torna homogénea graças à pouco dissipada apatia e ausência de interacção que este tipo de transportes colectivos sempre acarreta. O som aproxima-se. Apita a avisar da chegada como se o rosnar constante do vento a ser arrancado não chegasse para o anunciar. Ainda antes de parar, já todos se aglomeraram à beira do local onde julgam que a porta se abrirá. E desengane-se quem pense que se trata de um acto aleatório, pois facilmente se reconhecem os profissionais desta actividade ao se comprovar a sua perícia milimétrica.
Já lá dentro, o importante é encontrar um buraquinho para nos sentarmos, embora seja sempre preferível deixar passar aquelas velhas vizinhas (ou vizinhas velhas) com dois, três, quatro ou mais sacos com um mundo de cheio de nada no seu interior. Parecem formigas atarefadas em busca do lugar que julgam eternamente seu e para o qual ninguém tem sequer permissão de colocar a mirada em cima. Ao longe já oiço o inconfundível som de um acordeão, surpreendentemente tocado com alguma mestria. Em cima do instrumento que o jovem carrega, equilibra-se um pequeno cachorrinho com o fundo de uma garrafa de plástico para que nele se coloquem moedas de esmola. Não sei por quem tenho mais compaixão. Se do indefeso animal que passa o dia inteiro com um fio entre os dentes a segurar pedaços de metal dentro de um recipiente ou da ainda ingénua (ou se calhar não) criança que dá azo ao seu dom para alimentar vícios dos pais que a exploram...
Enquanto as vizinhas trocam agora impressões sobre as modas actuais das relações amorosas dos seres humanos (que confusão lhes faz os "ajuntamentos" sem casamento e aquela coisa nova dos "homem-sexuais"), um jovem parzinho de namorados enrosca as mãos e troca sorrisos de quem acabou de descobrir o quão bem sabe uma brutal descarga hormonal logo pela manhã. Trocam palavras e frases muitas vezes sem nexo para alguns ouvintes incautos, partilham beijos e outras carícias a cargo de uma ou outra mão que afagam carinhosamente as faces da sua outra metade. Ele, mais alto que ela, dá-lhe o ombro para que ela encoste a cabeça e se aninhe no pescoço dele, sentindo-se protegida de perigos que agora não existem mas que a conforta mesmo assim. "É favor não forçar as portas!". Certamente alguém mais voluntarioso que se atirou já após os silvos sonoros que indicam o fecho iminente das portas e que deixou uma mochila ou um pé presos entre elas.
Ao fundo, sozinho, um homem de meia-idade. Olha impacientemente para o relógio, alternando com movimentos desinquietantes no telemóvel. Obviamente espera por algo ou está atrasado para alguma coisa. Se calhar as duas. O eterno Português vive sempre na ânsia de concretizar sonhos e na sofreguidão de nunca chegar a tempo de os atingir. Escorrem-lhe gotas de suor pela testa. Semblante fechado. As vizinhas dão por ele. Murmuram um sussurro imperceptível, mas que ele percebe ser para ele. Cora. Atrapalha-se. Deixa cair o telemóvel quando de repente começa a vibrar nas suas mãos. Apressa-se a apanhá-lo e lê o que o ecrã lhe escrevinha. Sorri. Levanta-se e sai na próxima estação. Haja dias felizes para alguém.
"São Sebastião. Estação Terminal". Mesmo que não quisesse, é aqui que tenho que sair. Fim de linha. Literalmente. Mais uma vez, dou por mim a ser atropelado pelas ágeis velhas vizinhas, a quem somente interessa exercitar a língua e os belos braços que derriçam com força que aqueles singelos corpos parecem não ter. Deixo-as sair. "Take care of your belongings when entering or exiting the train". Instintivamente as vizinhas olham para as suas malas e remexem-lhes o interior, assegurando-se que têm tudo consigo. Mal sabem elas que esse é somente o primeiro sinal para denunciar o local onde guardam aquilo que de maior valor transportam consigo... Quando me aproximo do torniquete, um jovem algo tímido aborda-me e pergunta-me num tom pianíssimo: "Posso passar atrás de si?". Enquanto lhe aceno afirmativamente, esboço uma expressão alegre de condescendência por todos aqueles (incluindo eu próprio) que, com a idade daquele rapaz, também alguma vez ousaram fazer gazeta aos bilhetes dos transportes públicos. É talvez um dos primeiros actos de rebeldia de muitos dos adultos de hoje.
Subo as escadas e saio para a rua. Doem-me os olhos. Não vejo nada. Está sol lá fora.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
Desculpa-me
Desculpa-me. Desculpa-me por ter sido grosseiro e talvez demasiado bruto. Desculpa-me não ter tido a perspicácia desejada para talvez dar a mão à palmatória e remendar a minha falha. Desculpa-me não te ter dado (outra vez) o benefício da dúvida. Desculpa-me por te ter pedido desculpa e por ter pensado que podia corrigir algo. Desculpa-me por ter acreditado em ti. Desculpa-me por ter criado de ti uma opinião sustentada em algo que não existe e em algo que não és. Desculpa-me o facto de não teres tido a frontalidade de fazer aquilo de que me acusaste. Desculpa-me por saber que me acusaste de falta de carácter e de baixeza de espírito. Desculpa-me ainda por ter a certeza que és uma marioneta em mãos de outrem. Desculpa-me a tua falta de preocupação e a tua postura de "pessoa-desgraçada-que-faz-os-outros-pagarem-só-porque-já-pagou-muito". Desculpa-me a intolerância que bradas e os amigos que escolheste feitos lobos vestidos de carneiros. Desculpa-me o teatro que representas e me apresentas. Desculpa-me a falta de jeito para me entenderes. E desculpa-me a honestidade de lidar contigo à tua altura.
Porque peço que me desculpes disto tudo? Porque percebi que se a culpa não for minha, não será de ninguém.
Porque peço que me desculpes disto tudo? Porque percebi que se a culpa não for minha, não será de ninguém.
domingo, janeiro 16, 2011
Definições IX
Amanhã: dia em que sonhamos que aconteça o que já hoje passámos o dia à espera que tivesse acontecido.
sábado, dezembro 25, 2010
Desejo para 2011
Que sejamos todos um pouquinho egoístas. Porque, hoje em dia, se não nos preocuparmos connosco, quem é que se preocupará?
quarta-feira, dezembro 22, 2010
Descriação
És a maior das desilusões da minha vida. És aquela pessoa em que, por vezes, encontrei pedaços do que gostaria de ser para ser melhor. Pedaços que complementariam falhas que todos temos e muitas vezes não queremos assumir. Julguei que serias merecedor de tudo aquilo que sempre viram em ti e que de ti quiseram fazer de uma forma tão natural que quase nem percebeste. Daquele quadro idílico desenhado com a mais pura das ingenuidades e certezas que se encontram num pincel nu e ainda virgem. O tempo mostrou-me que estava errado. Que todos nós estávamos errados. Que tu também estavas errado. O problema é que os outros foram agora obrigados a estar certos enquanto tu, isolado na tua ignorância e incompreensão das mais básicas leis humanas, continuas sentado ao canto batendo o pé em defesa das tuas falhas.
Onde encontraste a coragem para te dessuperares tão grosseiramente? Como reuniste a força para descriar o que já há muito estava frágil? Deu-te prazer quebrar algo que se iria partir por si próprio sem necessidade de um soco no estômago? Usurpaste à socapa algo que nunca seria teu por direito e, mesmo após o teres furtado, não ganhaste o direito a possuir tal privilégio. Faltou-te a esperteza e, acima de tudo, a inteligência para saberes até onde pisar. Ao roubares do prato que te alimenta, do roupeiro que te veste ou da casa que te abriga, roubaste igualmente o resto de vergonha ou dignidade que poderias ainda possuir depois de toda a vitalidade que optaste por sugar para alimentares uma fome viciosa que te suga a ti próprio. Foi esse o caminho que escolheste e que agora te escolhe a ti de forma recíproca: o da mentira, o da falsidade, o do teatro, o da fuga antes que te apanhem, o da invenção. Do lado de cá deixas um mundo de incredulidade, de pasmo, de sofreguidão, de surrealidade. Por existires nessa tua actual essência e ausência, o mundo readquire novos contornos, novas cores, novos conteúdos. Novos mundos. E isso não é, de todo, interessante e convidativo. Tornaste-o mais que relógios de Dalí, demoiselles de Picasso ou salpicos de Pollock. Porque esses são suficientemente palpáveis, embora fruto da ficção de alguém, para que possam ser de algum modo apreendidos pelo nosso corpo e mente. O que tu criaste é um monstro que ultrapassa essas barreiras e explode com todos os limites que a vida me permitiu até hoje conhecer.
Não sei já onde te encontras. Às vezes chego mesmo a pensar se alguma vez mais te voltarás a encontrar. Tento varrer da minha mente aquilo que eu espero não ser verdade mas que os outros dizem não ser mentira. Isso significaria um turbilhão em espiral do qual já não conseguirias estender a mão em busca de um auxílio que há muito teimaste em afastar e despedaçar em tons de mesquinhez que ninguém te conhecia. Tenho medo que já lá estejas, bem atracado. Tenho medo também por ti mas cada vez menos por ti. Porque os teus tentáculos, de forma deliberada ou não, agarram inocentes como ventosas, que se consomem a ritmos tão ou mais céleres que tu. E são esses que cada vez mais me interessam e preocupam. Por ser injusto e não ser meritório. Por também me doer. Por me doer ver o definhar lento e agonizante. Por me doer ter que escolher.
Nunca vou esquecer. Nunca vou desculpar. Porque não quero e não posso. Porque não há razão ou explicação lógica possível de ser criada da forma mais arquitectada imaginável. Porque as tuas acções simplesmente revelam o total desnorte de um ser caído em desgraça. A aparente total perda de todas as suas capacidades que podiam ser brilhantes. A auto-flagelação das virtudes que outrora foram gabadas e veneradas. Afinal de contas, talvez os "sempre-em-pé" também caiam. Afinal de contas, talvez não existam "sempre-em-pés".
Onde encontraste a coragem para te dessuperares tão grosseiramente? Como reuniste a força para descriar o que já há muito estava frágil? Deu-te prazer quebrar algo que se iria partir por si próprio sem necessidade de um soco no estômago? Usurpaste à socapa algo que nunca seria teu por direito e, mesmo após o teres furtado, não ganhaste o direito a possuir tal privilégio. Faltou-te a esperteza e, acima de tudo, a inteligência para saberes até onde pisar. Ao roubares do prato que te alimenta, do roupeiro que te veste ou da casa que te abriga, roubaste igualmente o resto de vergonha ou dignidade que poderias ainda possuir depois de toda a vitalidade que optaste por sugar para alimentares uma fome viciosa que te suga a ti próprio. Foi esse o caminho que escolheste e que agora te escolhe a ti de forma recíproca: o da mentira, o da falsidade, o do teatro, o da fuga antes que te apanhem, o da invenção. Do lado de cá deixas um mundo de incredulidade, de pasmo, de sofreguidão, de surrealidade. Por existires nessa tua actual essência e ausência, o mundo readquire novos contornos, novas cores, novos conteúdos. Novos mundos. E isso não é, de todo, interessante e convidativo. Tornaste-o mais que relógios de Dalí, demoiselles de Picasso ou salpicos de Pollock. Porque esses são suficientemente palpáveis, embora fruto da ficção de alguém, para que possam ser de algum modo apreendidos pelo nosso corpo e mente. O que tu criaste é um monstro que ultrapassa essas barreiras e explode com todos os limites que a vida me permitiu até hoje conhecer.
Não sei já onde te encontras. Às vezes chego mesmo a pensar se alguma vez mais te voltarás a encontrar. Tento varrer da minha mente aquilo que eu espero não ser verdade mas que os outros dizem não ser mentira. Isso significaria um turbilhão em espiral do qual já não conseguirias estender a mão em busca de um auxílio que há muito teimaste em afastar e despedaçar em tons de mesquinhez que ninguém te conhecia. Tenho medo que já lá estejas, bem atracado. Tenho medo também por ti mas cada vez menos por ti. Porque os teus tentáculos, de forma deliberada ou não, agarram inocentes como ventosas, que se consomem a ritmos tão ou mais céleres que tu. E são esses que cada vez mais me interessam e preocupam. Por ser injusto e não ser meritório. Por também me doer. Por me doer ver o definhar lento e agonizante. Por me doer ter que escolher.
Nunca vou esquecer. Nunca vou desculpar. Porque não quero e não posso. Porque não há razão ou explicação lógica possível de ser criada da forma mais arquitectada imaginável. Porque as tuas acções simplesmente revelam o total desnorte de um ser caído em desgraça. A aparente total perda de todas as suas capacidades que podiam ser brilhantes. A auto-flagelação das virtudes que outrora foram gabadas e veneradas. Afinal de contas, talvez os "sempre-em-pé" também caiam. Afinal de contas, talvez não existam "sempre-em-pés".
terça-feira, novembro 30, 2010
A todos
Hoje agradeço a todos os que fizeram do meu caminho aquilo que eu percorri para chegar onde estou agora. Aos que me deitaram ao chão e me obrigaram a levantar com mais força. Aos que me ampararam quando as minhas paredes e o meu chão tremeram e se liquefizeram sem eu dar conta. Aos que me difamaram e mal-disseram, fazendo com que eu fosse mais eu próprio para que essas mentiras fossem meros farrapos de névoa. Aos que me defenderam, por vezes em prejuízo próprio, porque simplesmente acharam que o deviam fazer. Aos que me ignoraram e assim me ensinaram a retribuir na mesma moeda. Aos que me abraçaram, dizendo-me dessa forma aquilo que possivelmente as palavras não poderiam exprimir. Aos que me tentaram ultrapassar pisando-me, porque no fim continuei a ser eu a rir-me. Aos que me tentaram ultrapassar ajudando-me, porque no fim soube ficar feliz por vocês. Aos que foram inexistentes. Aos que estiveram sempre presentes. A todos. Porque, graças a todos, chego aqui hoje de pé. E no final, é sempre isso que conta. Obrigado.
sábado, outubro 30, 2010
Falar em silêncio
Gosto de ouvir a chuva lá fora, tentando distinguir cada gota cuja água resvala suavemente. Gosto de a ouvir lá fora enquanto estou aqui dentro, entusiasmado com essa grande distância tão próxima. Aqui dentro aconchegado entre lençóis e mantas, recolhendo-me do frio que tenta bater-me às janelas de forma quase inofensiva.
Lá fora o vento partilha o seu espaço com a chuva. Aqui dentro és tu que te anichas em mim. Colocas a cabeça no meu ombro enquanto eu te afasto o cabelo da testa e te dou um beijo. Um beijo de "boa noite" e um beijo de "estou sempre aqui". O teu braço agarra-me e, por outras palavras, diz o mesmo que o meu beijo. Porque partilhar é também conseguir falar em silêncio, de olhos fechados, e entender tudo aquilo que se diz sem se dizer.
Lá fora o vento partilha o seu espaço com a chuva. Aqui dentro és tu que te anichas em mim. Colocas a cabeça no meu ombro enquanto eu te afasto o cabelo da testa e te dou um beijo. Um beijo de "boa noite" e um beijo de "estou sempre aqui". O teu braço agarra-me e, por outras palavras, diz o mesmo que o meu beijo. Porque partilhar é também conseguir falar em silêncio, de olhos fechados, e entender tudo aquilo que se diz sem se dizer.
quinta-feira, setembro 30, 2010
Algarismos
Ei-los. Os marialvas desta vida, cuja vida é a ostentação do que têm e não têm. Porque a grandiosidade do ser se mede pelo que aufere e adquire e não pelo que faz ou é. Porque a vida é aquilo que se mostra e se quer que os outros vejam, como feitos grandiosos assentes em pedaços de papel e de metal que ofuscam a total leviandade e ausência de polpa sob uma casca demasiado decorada a preceito.
Para que importam os valores? Os princípios? As relações? Os outros? Desculpam-se com pressupostos e ideias pré-fabricadas e erradas de base para que consigam impingir uma cegueira fosca a quem desejavam não conhecer. Sabem que falham, julgando que o fazem de forma subtil, matreira e esperta, esperando assim atalhar caminho a direito por rotas que não existem e que tentam fazer brotar à força. Simplesmente porque não interessa dar sem se receber. Não interessa sequer dar mesmo que se receba. Percursos de sentido único que capitalizam tudo o que é valorizável, desprezando tudo aquilo que tem mais valor que isso. Porque (ainda) nem tudo é quantificável para que possa ser comparado e sobrevalorizado, subjugando-se o que sobra e se afunda sob números que nunca deixarão de ser isso mesmo. Algarismos. Algarismos que, tirados do contexto que tentam construir, mostram somente a nua realidade e a crua tristeza do vazio que comportam essas acções.
Para que importam os valores? Os princípios? As relações? Os outros? Desculpam-se com pressupostos e ideias pré-fabricadas e erradas de base para que consigam impingir uma cegueira fosca a quem desejavam não conhecer. Sabem que falham, julgando que o fazem de forma subtil, matreira e esperta, esperando assim atalhar caminho a direito por rotas que não existem e que tentam fazer brotar à força. Simplesmente porque não interessa dar sem se receber. Não interessa sequer dar mesmo que se receba. Percursos de sentido único que capitalizam tudo o que é valorizável, desprezando tudo aquilo que tem mais valor que isso. Porque (ainda) nem tudo é quantificável para que possa ser comparado e sobrevalorizado, subjugando-se o que sobra e se afunda sob números que nunca deixarão de ser isso mesmo. Algarismos. Algarismos que, tirados do contexto que tentam construir, mostram somente a nua realidade e a crua tristeza do vazio que comportam essas acções.
segunda-feira, agosto 30, 2010
Amor
Amor. Que sabes tu dele para dele tão eloquentemente falares? Mostra-me como articulas essas palavras em ideias moldadas pelos teus lábios que mentem a verdade com que tentas os outros deleitar. Agora ouve-te a ti própria e ao tão sem sentido que declamas entre falsidades das quais te moves como gelo do fogo. Percebes agora o quão desnaturais e inconsequentes são as bolas de sabão que tentas fazer subir ao céu?
Amor. Que sabes tu do amor pelos outros para que com tanta ânsia o tentes ensinar a quem ainda se deixa enganar em te escutar? Como ousas ousar tanta ousadia quando o amor que usas e com o qual te pintas todos os dias não é mais que aquele que te serve a cada momento? O teu amor pelos outros é o amor que em primeiro te satisfaz. Aquele com o qual brincas ao belo sabor dos teus desejos carnais e mais arcaicos. Como uma criança que joga com um brinquedo e tão cedo se farta por querer o alheio. Só porque apetece. E dá mais prazer.
Amor. Que sabes tu sobre o que é ter e fazer crescer um amor se contigo ele nunca passa de uma erva bravia e daninha que é sempre rasteira e só tenta abafar quem acima dela tenta crescer? Tens a boca demasiado suja para que as frases devessem ter permissão a soar, tamanha é a traição, a insensibilidade e a morte de espírito que causas a quem se enrola no teu "amo-te" frio em busca de um conforto inexistente. Mas tu sabes o que é o amor. O amor pelo teu próprio ser. Aquele amor narcisista que tem o dom de preencher os outros de um vazio só menor que a tua plenitude que com ele alcanças. O qual bebes como sangue que te alimenta como só de isso dependesses.
Amor. Que sabes tu como o dar se obrigaste todos a de ti o tirarem? Olha à tua volta e não te lamentes pela ausência de presenças que te abram os braços e te acolham. Vê-se que lutas desesperadamente, em constante fuga para um lugar em que julgas fugir dos desamores que construíste para que novos voltes a erguer. Sem que tenhas que carregar aqueles olhos cravados na tua nuca e aquelas mãos apertadas na tua garganta a tentarem fazer escoar aos poucos a réstia de esperança e de sentimento de superioridade que a vida teimosamente ainda te dá.
Estás longe desse lugar... Tão longe...
Amor. Que sabes tu do amor pelos outros para que com tanta ânsia o tentes ensinar a quem ainda se deixa enganar em te escutar? Como ousas ousar tanta ousadia quando o amor que usas e com o qual te pintas todos os dias não é mais que aquele que te serve a cada momento? O teu amor pelos outros é o amor que em primeiro te satisfaz. Aquele com o qual brincas ao belo sabor dos teus desejos carnais e mais arcaicos. Como uma criança que joga com um brinquedo e tão cedo se farta por querer o alheio. Só porque apetece. E dá mais prazer.
Amor. Que sabes tu sobre o que é ter e fazer crescer um amor se contigo ele nunca passa de uma erva bravia e daninha que é sempre rasteira e só tenta abafar quem acima dela tenta crescer? Tens a boca demasiado suja para que as frases devessem ter permissão a soar, tamanha é a traição, a insensibilidade e a morte de espírito que causas a quem se enrola no teu "amo-te" frio em busca de um conforto inexistente. Mas tu sabes o que é o amor. O amor pelo teu próprio ser. Aquele amor narcisista que tem o dom de preencher os outros de um vazio só menor que a tua plenitude que com ele alcanças. O qual bebes como sangue que te alimenta como só de isso dependesses.
Amor. Que sabes tu como o dar se obrigaste todos a de ti o tirarem? Olha à tua volta e não te lamentes pela ausência de presenças que te abram os braços e te acolham. Vê-se que lutas desesperadamente, em constante fuga para um lugar em que julgas fugir dos desamores que construíste para que novos voltes a erguer. Sem que tenhas que carregar aqueles olhos cravados na tua nuca e aquelas mãos apertadas na tua garganta a tentarem fazer escoar aos poucos a réstia de esperança e de sentimento de superioridade que a vida teimosamente ainda te dá.
Estás longe desse lugar... Tão longe...
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