terça-feira, março 25, 2008

Aliterações

Sossego. Percebo-te sagazmente em torno do solo que é meu. Sinto-te sobrevoar. Aproximas-te somente só. Roças sorrateira os meus cabelos. Sopras-me suavemente algo ao ouvido. Algo que sabes e que nada me diz. Suspendes a respiração... Um silêncio. Sagrado? Supostamente! Sussurras um novo zumbido de novo. Não entendo. São símbolos de um abecedário desconhecido. Não meu. Teu. Uns silvos bruscos. Horrendo. Horrível. Horripilante. Grotescamente rude. Gritos fortes que me rasgam qualquer esboço de reacção. Reduzem-me de forma macabra. A nada. A um resquício de trevas negras e tristes, tristemente ridicularizadas. Dás-me raiva. Raiva ruborizada por tudo o que me recordas e me relembras. "Rua!", apetece-me responder-te. Obrigar-te a correr aos tropeções. Rosnar-te algo ofensivo e mesquinho. Romper a direito o teu corpo e o teu ser quando ousam atravessar-se à minha frente e reter-me retirado do meu rumo. Redestruir o que não é para ser erguido. Erros.

Esbatido. Esgotado. Ansiando pelo sono solene. Desejoso de não sobreviver à superficialidade. Pessoas, situações. Segredos salvos com objectivo? Que objectivo?

Sabes... Nunca chegaste a ser o que deverias ter sido para ousar seres o que jamais serás. Regozijas-te demasiado por aquilo que apresentas e representas. Simples somas de zeros.

segunda-feira, março 10, 2008

Depois de tu partires...

Agora à distância, parecem dois metros que se cruzaram numa estação e que, durante escassos segundos, partilharam as linhas lado a lado. Mãos que se deram fugazmente com tanta força. Que se partiram e estilhaçaram quando ambas se dirigiram cada uma para sua direcção. Dizias que gostavas dela. Da companhia dela. Agradeceste-lhe ao ouvido o ombro que sempre te deu e o pequeno lugar que reservou só para ti. Dizias sentir-te bem naquele mundo por ela construído para lá caber um mundo novo e entravas em pânico quando te lembravas que deixavas sempre demasiada massa do teu corpo (e principalmente da tua mente) fora da esfera que se tentava construir. Desculpavas-te. Às vezes. Sempre soubeste quando devias ter-lhe dito ou feito algo mais antes de abandonares a tempos aquela utopia. Juraste que estarias sempre parado naquela estação porque te sentias bem amparado. Porque sentias que era bom não estar sozinho naquela encruzilhada de somente dois sentidos e um único ponto de encontro. Porque precisavas de alguém para te ouvir, para te ver chorar e para rir contigo. Naquele instante. Tão apenas naquele instante. Alguém para quem a sua presença fosse um prazer, certamente passageiro. Sempre soubeste e disseste isso tudo. Foram sempre promessas de se deslocarem em sentidos paralelos ou pelo menos não tão perpendiculares. Mas ela cansou-se de se tentar laçar a ti. Com um nó bem apertado e adequado à vontade que tinha. Mas ela fartou-se. Fartou-se de esperar. De te esperar. E depois ela partiu. Ou talvez tenhas sido tu a partires e ela tenha ficado no mesmo sítio à espera de outra parceira. Argumentaste que nunca percebeste. És capaz de ter fingido não ter percebido. Pediste para ela te gritar e chamar de volta a uma razão que variava entre a suposta e a julgada. Mas o problema era exactamente esse. Ela já havia bradado tudo o que a voz lhe permitia. Tu é que não ouviste. És capaz de ter fingido não ter ouvido. Mas nessa altura, depois de tu partires, era já tarde demais...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Pelo teu melhor

Sempre pensei que juntos, se tal fosse possível, faríamos o ser o humano perfeito. Teríamos, sob o meu (agora ingénuo) olhar, tudo para nos completarmos. Peças feitas à medida para formar daqueles puzzles admiráveis. Daqueles que só existem mesmo quando se juntam 2 indivíduos absolutamente distintos. O branco e o preto. O dia e a noite. O quente e o frio. Eu e tu.

Talvez tivesse sido assim nalgum período. Já não sei. Hoje tenho a certeza que tal não se passa. Simplesmente porque tens mais do que o que devias. Excedeste os limites exigidos pela mínima decência. Não pela minha, mas antes pela que é mais correcta. Erraste. E deste daqueles erros bem graves. Daqueles que pesam demais. Que marcam muito muita gente. E não pensaste nisso. Simplesmente fizeste. E pior que isso, deixaste-me com a tua asneira na mão. Para eu decidir o que fazer dela. O que fazer de ti...

Não sei... Talvez aja pelo teu melhor.

Naquele dia

Naquele dia consegui tudo. Bati todos, inclusive eu próprio. Superei-me. Às minhas capacidades e aos meus receios. Às minhas inseguranças em todos os campos. Disse para mim mesmo "Sim, vais fazê-lo!". E fi-lo. Virei as costas e fui em frente. Sem medo. Sei o que causei. Sei o que provoquei. Já tinha isso em mente quando dei o primeiro passo tímido antes do primeiro passo decidido. Há tanto para aprender. Há tanta gente para aprender. Naquele dia houve quem explodisse. Ou implodisse. Eu fiquei feliz. Feliz por não me interessar minimamente por qualquer outra coisa. Ou qualquer outro ser humano. Por sentir que naquele dia fui eu para mim. Só para mim. Lixei-me para os outros. De propósito. E senti-me bem. É realmente óptimo estar bem com os pecados que cometemos.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Sem escrita

Algo de errado se passa quando dou uma prenda a alguém sem escrever alguma coisa. Por mais pequena e simples que seja. Algo de mal se passa quando não sou capaz de dizer alguma coisa a alguém. Nessas alturas normalmente prefiro não dizer o que me apeteceria dizer. Aliás, não dizer nada para quem costuma dizer sempre alguma coisa, acaba por querer dizer muito.

Rir

Só já me dá para rir, tal não é a surrealidade de tudo isto. Não choro, não me chateio, não me aborreço. Só rio. Rio das disparidades de critérios. De vontades. Rio de gozo. De desprezo pelo desprezo. Ainda bem que há pessoas que agem sempre com dois pesos e duas medidas. Ainda bem que eu o vou começar a fazer também.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Tudo-Nada

Não compreendo porque é que se age como se nada se tivesse passado, quando tudo o que se passou foi tudo menos nada. Quando o nada que aconteceu, foi simplesmente o tudo que representa. Quando tudo o que se faz ou diz, é somente nada daquilo que se devia ter feito ou dito. Quando tudo me desilude. Quando já nada me espanta. Quando espero tudo que continuará a ser sempre nada.

Porque não se arranja um meio-termo? Que tal um tudo-nada perfeito?

Máquina

Há quem pense que sou uma máquina. Há quem pense que sou nada. Sei que não sou nenhuma das situações, principalmente a primeira. Canso-me e consumo-me como qualquer outra pessoa. Às vezes também me apetece desaparecer. Por um bocado. Deixar o tempo saltar sem que eu tenha consciência disso. Avançar e deixar algo para trás. Resolver coisas que não consigo resolver conscientemente. Que ao menos se resolvam enquanto viver nesse estado de entorpecimento em que vivo tudo mas não convivo nada. Só peço: por favor, deixem-me estar sossegado e não me incomodem mais.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Motivo aleatório

Pensei que a minha sorte me ia dar um motivo. Desejei com muita força que isso acontecesse... Mas não aconteceu.

Não vou ter saudades

Ainda não acabou e já sei que não gostei. Que não gosto. Muito menos que irei alguma vez gostar. Já sei que não vou ter saudades. De tudo. De todos. Não vou sentir aquela nostalgia de quem saboreou todos os momentos. Não vou sentir qualquer amargura por me atrever a pensar que poderia ter sido diferente. Foi o que tinha que ser. E o que tem que ser tem muita força. Não me arrependo de não ter perdido mais um minuto. Tenho a certeza que teria sido mais um minuto perdido. E a partir de agora vou-me tentar lembrar de me esquecer. Ou tentar esquecer de me lembrar. Mas não vou passar por cima disso. Vou passar ao lado. Completamente ao lado.