segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Desculpa-me

Desculpa-me. Desculpa-me por ter sido grosseiro e talvez demasiado bruto. Desculpa-me não ter tido a perspicácia desejada para talvez dar a mão à palmatória e remendar a minha falha. Desculpa-me não te ter dado (outra vez) o benefício da dúvida. Desculpa-me por te ter pedido desculpa e por ter pensado que podia corrigir algo. Desculpa-me por ter acreditado em ti. Desculpa-me por ter criado de ti uma opinião sustentada em algo que não existe e em algo que não és. Desculpa-me o facto de não teres tido a frontalidade de fazer aquilo de que me acusaste. Desculpa-me por saber que me acusaste de falta de carácter e de baixeza de espírito. Desculpa-me ainda por ter a certeza que és uma marioneta em mãos de outrem. Desculpa-me a tua falta de preocupação e a tua postura de "pessoa-desgraçada-que-faz-os-outros-pagarem-só-porque-já-pagou-muito". Desculpa-me a intolerância que bradas e os amigos que escolheste feitos lobos vestidos de carneiros. Desculpa-me o teatro que representas e me apresentas. Desculpa-me a falta de jeito para me entenderes. E desculpa-me a honestidade de lidar contigo à tua altura.

Porque peço que me desculpes disto tudo? Porque percebi que se a culpa não for minha, não será de ninguém.

domingo, janeiro 16, 2011

Definições IX

Amanhã: dia em que sonhamos que aconteça o que já hoje passámos o dia à espera que tivesse acontecido.

sábado, dezembro 25, 2010

Desejo para 2011

Que sejamos todos um pouquinho egoístas. Porque, hoje em dia, se não nos preocuparmos connosco, quem é que se preocupará?

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Descriação

És a maior das desilusões da minha vida. És aquela pessoa em que, por vezes, encontrei pedaços do que gostaria de ser para ser melhor. Pedaços que complementariam falhas que todos temos e muitas vezes não queremos assumir. Julguei que serias merecedor de tudo aquilo que sempre viram em ti e que de ti quiseram fazer de uma forma tão natural que quase nem percebeste. Daquele quadro idílico desenhado com a mais pura das ingenuidades e certezas que se encontram num pincel nu e ainda virgem. O tempo mostrou-me que estava errado. Que todos nós estávamos errados. Que tu também estavas errado. O problema é que os outros foram agora obrigados a estar certos enquanto tu, isolado na tua ignorância e incompreensão das mais básicas leis humanas, continuas sentado ao canto batendo o pé em defesa das tuas falhas.
Onde encontraste a coragem para te dessuperares tão grosseiramente? Como reuniste a força para descriar o que já há muito estava frágil? Deu-te prazer quebrar algo que se iria partir por si próprio sem necessidade de um soco no estômago? Usurpaste à socapa algo que nunca seria teu por direito e, mesmo após o teres furtado, não ganhaste o direito a possuir tal privilégio. Faltou-te a esperteza e, acima de tudo, a inteligência para saberes até onde pisar. Ao roubares do prato que te alimenta, do roupeiro que te veste ou da casa que te abriga, roubaste igualmente o resto de vergonha ou dignidade que poderias ainda possuir depois de toda a vitalidade que optaste por sugar para alimentares uma fome viciosa que te suga a ti próprio. Foi esse o caminho que escolheste e que agora te escolhe a ti de forma recíproca: o da mentira, o da falsidade, o do teatro, o da fuga antes que te apanhem, o da invenção. Do lado de cá deixas um mundo de incredulidade, de pasmo, de sofreguidão, de surrealidade. Por existires nessa tua actual essência e ausência, o mundo readquire novos contornos, novas cores, novos conteúdos. Novos mundos. E isso não é, de todo, interessante e convidativo. Tornaste-o mais que relógios de Dalí, demoiselles de Picasso ou salpicos de Pollock. Porque esses são suficientemente palpáveis, embora fruto da ficção de alguém, para que possam ser de algum modo apreendidos pelo nosso corpo e mente. O que tu criaste é um monstro que ultrapassa essas barreiras e explode com todos os limites que a vida me permitiu até hoje conhecer.
Não sei já onde te encontras. Às vezes chego mesmo a pensar se alguma vez mais te voltarás a encontrar. Tento varrer da minha mente aquilo que eu espero não ser verdade mas que os outros dizem não ser mentira. Isso significaria um turbilhão em espiral do qual já não conseguirias estender a mão em busca de um auxílio que há muito teimaste em afastar e despedaçar em tons de mesquinhez que ninguém te conhecia. Tenho medo que já lá estejas, bem atracado. Tenho medo também por ti mas cada vez menos por ti. Porque os teus tentáculos, de forma deliberada ou não, agarram inocentes como ventosas, que se consomem a ritmos tão ou mais céleres que tu. E são esses que cada vez mais me interessam e preocupam. Por ser injusto e não ser meritório. Por também me doer. Por me doer ver o definhar lento e agonizante. Por me doer ter que escolher.
Nunca vou esquecer. Nunca vou desculpar. Porque não quero e não posso. Porque não há razão ou explicação lógica possível de ser criada da forma mais arquitectada imaginável. Porque as tuas acções simplesmente revelam o total desnorte de um ser caído em desgraça. A aparente total perda de todas as suas capacidades que podiam ser brilhantes. A auto-flagelação das virtudes que outrora foram gabadas e veneradas. Afinal de contas, talvez os "sempre-em-pé" também caiam. Afinal de contas, talvez não existam "sempre-em-pés".

terça-feira, novembro 30, 2010

A todos

Hoje agradeço a todos os que fizeram do meu caminho aquilo que eu percorri para chegar onde estou agora. Aos que me deitaram ao chão e me obrigaram a levantar com mais força. Aos que me ampararam quando as minhas paredes e o meu chão tremeram e se liquefizeram sem eu dar conta. Aos que me difamaram e mal-disseram, fazendo com que eu fosse mais eu próprio para que essas mentiras fossem meros farrapos de névoa. Aos que me defenderam, por vezes em prejuízo próprio, porque simplesmente acharam que o deviam fazer. Aos que me ignoraram e assim me ensinaram a retribuir na mesma moeda. Aos que me abraçaram, dizendo-me dessa forma aquilo que possivelmente as palavras não poderiam exprimir. Aos que me tentaram ultrapassar pisando-me, porque no fim continuei a ser eu a rir-me. Aos que me tentaram ultrapassar ajudando-me, porque no fim soube ficar feliz por vocês. Aos que foram inexistentes. Aos que estiveram sempre presentes. A todos. Porque, graças a todos, chego aqui hoje de pé. E no final, é sempre isso que conta. Obrigado.

sábado, outubro 30, 2010

Falar em silêncio

Gosto de ouvir a chuva lá fora, tentando distinguir cada gota cuja água resvala suavemente. Gosto de a ouvir lá fora enquanto estou aqui dentro, entusiasmado com essa grande distância tão próxima. Aqui dentro aconchegado entre lençóis e mantas, recolhendo-me do frio que tenta bater-me às janelas de forma quase inofensiva.
Lá fora o vento partilha o seu espaço com a chuva. Aqui dentro és tu que te anichas em mim. Colocas a cabeça no meu ombro enquanto eu te afasto o cabelo da testa e te dou um beijo. Um beijo de "boa noite" e um beijo de "estou sempre aqui". O teu braço agarra-me e, por outras palavras, diz o mesmo que o meu beijo. Porque partilhar é também conseguir falar em silêncio, de olhos fechados, e entender tudo aquilo que se diz sem se dizer.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Algarismos

Ei-los. Os marialvas desta vida, cuja vida é a ostentação do que têm e não têm. Porque a grandiosidade do ser se mede pelo que aufere e adquire e não pelo que faz ou é. Porque a vida é aquilo que se mostra e se quer que os outros vejam, como feitos grandiosos assentes em pedaços de papel e de metal que ofuscam a total leviandade e ausência de polpa sob uma casca demasiado decorada a preceito.
Para que importam os valores? Os princípios? As relações? Os outros? Desculpam-se com pressupostos e ideias pré-fabricadas e erradas de base para que consigam impingir uma cegueira fosca a quem desejavam não conhecer. Sabem que falham, julgando que o fazem de forma subtil, matreira e esperta, esperando assim atalhar caminho a direito por rotas que não existem e que tentam fazer brotar à força. Simplesmente porque não interessa dar sem se receber. Não interessa sequer dar mesmo que se receba. Percursos de sentido único que capitalizam tudo o que é valorizável, desprezando tudo aquilo que tem mais valor que isso. Porque (ainda) nem tudo é quantificável para que possa ser comparado e sobrevalorizado, subjugando-se o que sobra e se afunda sob números que nunca deixarão de ser isso mesmo. Algarismos. Algarismos que, tirados do contexto que tentam construir, mostram somente a nua realidade e a crua tristeza do vazio que comportam essas acções.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Amor

Amor. Que sabes tu dele para dele tão eloquentemente falares? Mostra-me como articulas essas palavras em ideias moldadas pelos teus lábios que mentem a verdade com que tentas os outros deleitar. Agora ouve-te a ti própria e ao tão sem sentido que declamas entre falsidades das quais te moves como gelo do fogo. Percebes agora o quão desnaturais e inconsequentes são as bolas de sabão que tentas fazer subir ao céu?

Amor. Que sabes tu do amor pelos outros para que com tanta ânsia o tentes ensinar a quem ainda se deixa enganar em te escutar? Como ousas ousar tanta ousadia quando o amor que usas e com o qual te pintas todos os dias não é mais que aquele que te serve a cada momento? O teu amor pelos outros é o amor que em primeiro te satisfaz. Aquele com o qual brincas ao belo sabor dos teus desejos carnais e mais arcaicos. Como uma criança que joga com um brinquedo e tão cedo se farta por querer o alheio. Só porque apetece. E dá mais prazer.

Amor. Que sabes tu sobre o que é ter e fazer crescer um amor se contigo ele nunca passa de uma erva bravia e daninha que é sempre rasteira e só tenta abafar quem acima dela tenta crescer? Tens a boca demasiado suja para que as frases devessem ter permissão a soar, tamanha é a traição, a insensibilidade e a morte de espírito que causas a quem se enrola no teu "amo-te" frio em busca de um conforto inexistente. Mas tu sabes o que é o amor. O amor pelo teu próprio ser. Aquele amor narcisista que tem o dom de preencher os outros de um vazio só menor que a tua plenitude que com ele alcanças. O qual bebes como sangue que te alimenta como só de isso dependesses.

Amor. Que sabes tu como o dar se obrigaste todos a de ti o tirarem? Olha à tua volta e não te lamentes pela ausência de presenças que te abram os braços e te acolham. Vê-se que lutas desesperadamente, em constante fuga para um lugar em que julgas fugir dos desamores que construíste para que novos voltes a erguer. Sem que tenhas que carregar aqueles olhos cravados na tua nuca e aquelas mãos apertadas na tua garganta a tentarem fazer escoar aos poucos a réstia de esperança e de sentimento de superioridade que a vida teimosamente ainda te dá.

Estás longe desse lugar... Tão longe...

quarta-feira, julho 21, 2010

Eu? Sim...

Não achas que há alguma coisa errada? Não sentes que há algo a menos? E isso não te incomoda? Não fraquejas à falta de um suporte? Perguntas-te porquê? Desabafas com alguém? Não te amarras ao orgulho? Não te restringes às tuas leis? Não te estagnas e dilaceras assim? Reconheces onde pisaste ao lado? Reconheces quando pisaste demais? Pensas nisso com frequência? Consomes-te por vezes? Irritas-te e revoltas-te a tempos? E depois, recordas-te? Enterneces-te de olhos fechados? Percorres letras construídas? Decalcas de cor sons memorizados? E aí, não vês a incoerência? Não procuras a coerência para voltar a esse passado todo?

E não tens saudades de esse passado todo?

terça-feira, junho 29, 2010

Definições VIII

Felicidade: objectivo que se atinge após percorrer um caminho por vontade própria e simultaneamente por ausência de interferência de outros.