Sabe bem pegar num livro novo e começar a abri-lo à nossa maneira. A folhear cada pedaço de papel como nos apetece, a interpretar cada palavra de acordo com a nossa maneira de ser, a sonhar com a história que cada um deles contém. Histórias daquelas que não acabam, que percorrem livros com mais de 500 páginas e que ainda têm a capacidade de saltitar de volume em volume num caminho que se crê que vai sempre em frente.
Um livro deveria ser algo em que só se pega uma vez. Algo que só se larga porque a história chegou ao fim. E aí deveria ir para a prateleira. Para aquela mais alta, onde nunca mais ninguém lhe descansaria a vista em cima. Mas há sempre aquele dia em que, no meio de uma limpeza qualquer, se volta a encarar aquele objecto, já com a capa cheia de pó, com as páginas amarelas de tão velhas e dobradas e gastas de tão viradas. Se calhar é normal perder um pouco de tempo a voltar a olhá-lo, com alguma nostalgia, e reviver mentalmente tudo o que se viveu e sentiu quando se esteve no seu interior. Os pedaços de papel, as palavras e as histórias.
Há quem, arrebatado por essa nostalgia tão inconsciente e animal, se atreva a pegar naquele pedaço de passado e a voltar a lê-lo, mesmo que isso signifique largar um livro novinho que ainda há pouco se começara. E muitas vezes essa saudade dá somente lugar à desilusão por já se conhecer a velha trama de trás para a frente. De se saber como começa e, sobretudo, como acaba. Ou melhor, porque acaba. Descobre-se que aquele objecto já está completamente descoberto. Que não tem mais nada para descobrir. Está lido.
Tenta-se depois voltar ao livro novo, que com tanto cuidado se tinha tentado obter. Mas por capricho do livro, este muitas vezes deixa de abrir, ou se o faz, nunca mais vai contar a mesma história de antes.
Este é o meu Atlas.O meu Atlas Deus que carrega o meu mundo. O meu Atlas que sofre por sonhos. O meu Atlas que, mesmo sofrendo por vezes, é feliz por sonhar.
domingo, janeiro 21, 2007
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Cromossomas
A verdade é que te admiro. Principalmente essa tua capacidade despreocupada com que corres pelos teus caminhos. Apesar de me irritar esse teu "conformismo", invejo-te a articulação para te dares aos outros. De te rodeares por imensas pessoas que conseguem gostar de ti. A sério. Por seres tu.
Só tenho pena por não mostrares interesse por esse teu valor enorme. Que não cultives o carinho que os outros te dão ou que não te trates, a ti e a tudo o que fazes. Temo que vais cair ainda bastantes vezes. Espero que não muitas nem muito altas. Mas tens outra coisa que gostava de ter: um espírito de "sempre-em-pé".
Só tenho pena por não mostrares interesse por esse teu valor enorme. Que não cultives o carinho que os outros te dão ou que não te trates, a ti e a tudo o que fazes. Temo que vais cair ainda bastantes vezes. Espero que não muitas nem muito altas. Mas tens outra coisa que gostava de ter: um espírito de "sempre-em-pé".
terça-feira, janeiro 09, 2007
És assim
Cepticismo. É esse o maior dos teus problemas e dos teus defeitos. É esse o maior dos teus pecados. É essa tua necessidade de não acreditar nas pessoas... Porque é que o fazes, o continuas a fazer ou não o deixas para trás? Porque é que te permites a essa limitação, a essa corda, a essas correntes tão pesadas, dolorosas e incomodativas? Talvez não mereças quem tens, por mais forte que essa ligação possa ser. Talvez só te falte capacidade para dar valor ou de seres alguma coisa mais parecida com um ser humano.
Podes ter ou não culpa. Não interessa... És assim e não prestas por assim seres. Para ti e para os outros. Esse sofrimento arrastado, corrosivo e rancoroso chega a roçar o doentio... Mas porquê? Aceita as chaves que já te foram entregues no coração, para que possas abrir esse cadeado. É só rodar para a esquerda...
Podes ter ou não culpa. Não interessa... És assim e não prestas por assim seres. Para ti e para os outros. Esse sofrimento arrastado, corrosivo e rancoroso chega a roçar o doentio... Mas porquê? Aceita as chaves que já te foram entregues no coração, para que possas abrir esse cadeado. É só rodar para a esquerda...
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Impressionante
É impressionante a capacidade que a nossa memória auditiva tem para nos fazer viajar no tempo. O que a simples audição de uma voz nos é capaz de trazer à cabeça, mesmo que estejamos de olhos fechados na mais profunda das escuridões. E em tão poucos segundos.
É impressionante a capacidade que a nossa memória olfactiva tem para nos levar para lugares e para junto de pessoas. Locais e pessoas que não vemos há bem mais tempo do que os meros segundos que é preciso para um perfume nos fazer associar tantas ideias.
É impressionante a capacidade que a nossa memória visual tem para que consigamos identificar coisas tão nossas, mesmo que muito mudadas. Olhar para além daquilo que está à nossa frente, juntando pequeninas peças gastas e flashes pouco claros, mas tão iguais como sempre.
É impressionante como estas memórias mais primitivas, mais animais, nos conseguem trazer tanto e tanta coisa. Como nos emergem aqueles pormenores que nos marcam e dos quais raramente nos lembramos: um tom de voz, um perfume ou um flash.
É impressionante a capacidade que a nossa memória cortical tem para que possamos associar as nossas decisões a muito mais para além das nossas memórias primitivas. A possibilidade que nos dá de juntar sentimentos tão mais complexos e característicos da nossa espécie. Coisas que mais nenhum ser sente.
É impressionante a capacidade que esta memória tem para, apesar de mais racional, por vezes se sobrepor a todas as outras. Porque às vezes tem que ser.
É impressionante a capacidade que a nossa memória olfactiva tem para nos levar para lugares e para junto de pessoas. Locais e pessoas que não vemos há bem mais tempo do que os meros segundos que é preciso para um perfume nos fazer associar tantas ideias.
É impressionante a capacidade que a nossa memória visual tem para que consigamos identificar coisas tão nossas, mesmo que muito mudadas. Olhar para além daquilo que está à nossa frente, juntando pequeninas peças gastas e flashes pouco claros, mas tão iguais como sempre.
É impressionante como estas memórias mais primitivas, mais animais, nos conseguem trazer tanto e tanta coisa. Como nos emergem aqueles pormenores que nos marcam e dos quais raramente nos lembramos: um tom de voz, um perfume ou um flash.
É impressionante a capacidade que a nossa memória cortical tem para que possamos associar as nossas decisões a muito mais para além das nossas memórias primitivas. A possibilidade que nos dá de juntar sentimentos tão mais complexos e característicos da nossa espécie. Coisas que mais nenhum ser sente.
É impressionante a capacidade que esta memória tem para, apesar de mais racional, por vezes se sobrepor a todas as outras. Porque às vezes tem que ser.
Sonhar
Se eu pudesse escolher uma prenda de Natal para nós dois, era isto que eu escolheria: que continuasses sempre a sonhar. Sempre a acreditar nos teus sentimentos. Sem medo. Porque é isso que nos une: tu fazes-me sonhar o meu pensamento e eu faço-te pensar os teus sonhos. É através dessa tua capacidade que atingimos o nosso equilíbrio. Para além disso, gosto muito de ter ver sonhar. E gosto ainda mais quando o fazes com aquele sorriso de criança na cara. Aquele sorriso que diz que tudo é possível...
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Há um ano...
Faz hoje um ano que decidi começar este espaço, tanto para mim mas também (e principalmente) para os outros. Sinto-me feliz por perceber que consigo encarar e levar este meu objectivo, de há tanto tempo, a sério. Faz-me bem ao ego. É verdade que estive também para desistir. Desistir por me faltarem motivos, vontade, fins. Imaginei-lhe conclusão (que não estará nunca esquecida). Mas ainda aqui estou e estarei por mais algum tempo...
Ao longo deste ano, percebi que os meus textos me ajudaram muito, principalmente no sentido de me mostrar aos outros. Sim, porque eu não sou só aquele ser carrancudo e fechado que normalmente todos vêem. Sei que o que escrevi me aproximou de algumas pessoas. Que algumas coisas me fizeram viver o passado. Que outras me fizeram dar um passo no futuro. Sei que não tive medo de ferir susceptibilidades. Sei que não tive medo de dizer que errei. Sei que também devo ter criado expectativas que provavelmente nunca cumprirei. Sei que talvez tenha servido para ajudar, dar um sorriso, estimular 2 minutos de reflexão ou simplesmente passar o tempo. E é por este pequeno retorno, que digo que valeu mesmo a pena.
Ao longo deste ano, percebi que os meus textos me ajudaram muito, principalmente no sentido de me mostrar aos outros. Sim, porque eu não sou só aquele ser carrancudo e fechado que normalmente todos vêem. Sei que o que escrevi me aproximou de algumas pessoas. Que algumas coisas me fizeram viver o passado. Que outras me fizeram dar um passo no futuro. Sei que não tive medo de ferir susceptibilidades. Sei que não tive medo de dizer que errei. Sei que também devo ter criado expectativas que provavelmente nunca cumprirei. Sei que talvez tenha servido para ajudar, dar um sorriso, estimular 2 minutos de reflexão ou simplesmente passar o tempo. E é por este pequeno retorno, que digo que valeu mesmo a pena.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Um lugar tão meu...
Gosto de me sentar mesmo à beira do paredão e deixar as minhas pernas suspensas sobre a água. Ou então simplesmente reclinar-me sobre um qualquer banco e deixar-me ficar. Este lugar chama-me, a mim e ao meu pensamento. Como se as ideias viessem com as pequenas ondas que se dirigem a mim, vindas de não sei onde. Ideias boas e más. Frequentemente más. Melhor: inquietantes. Arrepia-me sentir aquele vento característico. Aquele vento que é capaz de me atravessar a pele, os músculos, os ossos. Aquele vento que traz com ele aquele cheiro inconfundível a maresia. E que volta a sair. Vai mas não leva com ele os meus fantasmas. Nem ele nem as ondas que antes vinham e que agora se afastam para longe da minha vista. Já sei que o melhor não é esperar que algum destes agentes me ajude a levá-los. Sei que me devo deixar consumir com estas memórias e com as minhas preocupações. Pelo menos enquanto aqui estiver neste lugar que é de todos mas que acaba por ser tão meu. Não tenho medo da melancolia que se me assola. Deixo-a entrar. Enfrento-a. Custa mas alivia...
Quando aqui estou, parece que tudo o que está nas minhas costas deixa de existir. Sou eu e o mar. E tudo o que ele me dá e tudo o que ele não me tira. Já perdi pessoas aqui. Também já comecei a ganhar algumas neste lugar. Tive até o prazer de destruir outras num pequeno canto algures por perto. Será sempre algo demasiado simbólico para que me seja indiferente. Há quem diga que é um cenário perfeito, daqueles de quadros pintados com as mais bonitas cores. Eu não o vejo assim. Vejo-o de cores escuras, abafadas, presas. Um cenário demasiado deprimente. Demasiado revivalista. Odeio-o por gostar dele. Evito-o por precisar dele...
Ao fundo um barco passa no horizonte... Corta-o como me corta neste instante o rodopio que me invade a cabeça. Por hoje chega. Levanto-me e dirijo-me para o mundo nas minhas costas.
Quando aqui estou, parece que tudo o que está nas minhas costas deixa de existir. Sou eu e o mar. E tudo o que ele me dá e tudo o que ele não me tira. Já perdi pessoas aqui. Também já comecei a ganhar algumas neste lugar. Tive até o prazer de destruir outras num pequeno canto algures por perto. Será sempre algo demasiado simbólico para que me seja indiferente. Há quem diga que é um cenário perfeito, daqueles de quadros pintados com as mais bonitas cores. Eu não o vejo assim. Vejo-o de cores escuras, abafadas, presas. Um cenário demasiado deprimente. Demasiado revivalista. Odeio-o por gostar dele. Evito-o por precisar dele...
Ao fundo um barco passa no horizonte... Corta-o como me corta neste instante o rodopio que me invade a cabeça. Por hoje chega. Levanto-me e dirijo-me para o mundo nas minhas costas.
quinta-feira, novembro 23, 2006
Quando não consigo
Sempre que tento fazer algo (várias vezes) e não o consigo (várias vezes), acho que o caminho mais fácil é ir-me embora. Não que esta seja uma atitude de fugir ou desistir. Nada disso. É somente a consciencialização de que não dá. Não tenho capacidade. Não sou suficientemente bom. Ficar, tentar e errar de novo só dói mais, custa mais, mói mais... Nem sempre o melhor é insistir. "À primeira caem todos... À segunda cai quem quer..." À terceira caem os estúpidos...
quinta-feira, novembro 16, 2006
Nevoeiro

Uma das coisas que mais me atrai e fascina são aquelas imensas paredes de nevoeiro. Aquelas paredes que encontramos quando subimos aos cumes das nossas montanhas mais altas, quando nos perdemos nas nossas florestas ao amanhecer, quando mergulhamos ao fundo dos nossos mais íngremes vales. Atrai-me não conseguir ver nada para além delas, de poder não ser visto quando estou dentro delas. Apetece-me deambular, bem devagar, como quem se arrasta, para a companhia de uma delas. Para que me encharque até aos ossos e me gele e congele por completo. Para me fazer desaparecer, nem que seja por um bocado. É talvez isso que mais me cativa: a possibilidade de me evaporar com o nevoeiro. De ir e ficar ao mesmo tempo. Em todo o lado. Por todo o lado. Sem ninguém me prestar a mínima atenção. Partir para ver como seria tudo sem a minha presença. O que aconteceria às minhas coisas, aos meus lugares, às minhas pessoas. O que seriam as reacções das pessoas. Principalmente isso. Talvez hoje já as possa adivinhar. Talvez hoje não queira acreditar que aquilo que adivinho pudesse ser verdade. Conjecturas... Talvez saiba a quem faria falta, em quem me tornaria em lágrimas (por muito ou pouco tempo). Talvez saiba a quem não faria falta nenhuma, em quem me tornaria o nada do que sou já agora. Mas... isso são coisas que eu nunca saberei. Vivo com elas, para mim.
Fico à espera do meu nevoeiro. Fico à espera que ele me leve um dia. Num dia em que o sol nascerá gelado para sempre.
domingo, novembro 12, 2006
"O distinto"
O aço de uma aliança é somente a necessidade de se materializar e de se mostrar aquilo que, primeiramente, se deveria sentir e viver. A aliança é somente o resultado daquilo que o coração deve perceber. E assim sendo, terá necessariamente quer ser menos que um dedo que se estende ou um olhar que se conforta. O amor não está na exteriorização, mas na interiorização (em nós e no outro) de todos os pormenores (por mais estúpidos que pareçam) e que têm o maior dos significados por si só.
Depois há as palavras. Ou, como sempre me chamam a atenção, a maneira como dizemos essas palavras. A entoação, a oportunidade, o contexto em que elas nos fogem da boca. Não serão elas mais poderosas que qualquer arma que exista? Não são elas que fazem o impensável, que partem o inquebrável e juntam o que jamais se completaria? As palavras são tão tentadoras de se usarem e tão fáceis de ser mal usadas...
E o amor é isto tudo. Uma amálgama de sentimentos maiores ou menores, mais puros ou mais confusos. Uma amálgama de palavras que se dizem e se deixam por dizer, que se ouvem ou não se querem ouvir. O amor nada tem de parecido com aquele que nos fazem passar todos os dias. Belo, perfeito, carnal, eterno. O amor é tão simples quanto... sofrimento. Só ama quem sofre, quem chora, quem não dorme, quem não come. Antes de prazer, o amor dá sempre dor. Dá-nos depois necessidade, dependência. Algo que deixamos de saber se vem do coração ou da cabeça. Dos dois lados. De lado nenhum. O amor mata, mas acima de tudo fere. E não há que ter vergonha ou medo de o mostrar. Porque mostrar e cuidar das feridas que ele deixa é desde logo uma prova e uma mostra que ele existe. Uma prova talvez muito mais honesta que o aço de uma aliança. Porquê tentar esconder uma cicatriz que não existe? O amor sangra-nos e fá-lo-á sempre.
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