quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Feitios

O principal problema do meu feitio de merda é não conseguir odiar minimamente as pessoas que eu adoro de verdade.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O meu mundo

O meu mundo começa no meu quarto. No sítio onde tenho as minhas coisas arrumadas como eu quero. No sítio onde eu próprio me arrumo comodamente. É aqui que eu vivo e que a minha vida ganha vida. Livros, puzzles, espelhos... Tenho aqui tudo. Mas aquilo que guardo com mais afinco é a minha caixa de sapatos cheia de areia e areias. Areias que um dia foram pedrinhas. Pedrinhas que fizeram parte de enormes rochedos.
Gosto de, solenemente, abrir a tampa da caixa feita de cartão. Cartão muito pesado. Gosto de depois olhar lá para dentro e agarrar naquele pedaço de matéria que não é mais do que a suficiente para me encher uma mão fechada. Mão essa que com toda a raiva cuidadosa espalho ao longo do meu mar. Aquele que é feroz e se levanta gigantescamente sobre o imenso areal de quilómetros que eu acabo de estender. É nesse manto de grãos que ando muitas vezes. Descalço. Deixando os meus pés marcados na fusão de água e calhaus minúsculos do meu tamanho, que o próprio líquido se encarrega de apagar ou recolher, na ânsia de queimar a saudade que virá até que um novo pé se decalque. Aqui sinto gotas de oceano a espetarem-se na minha pele. Frias e aguçadas como... gotas de oceano. Que me rasgam o corpo. E que tão bem me fazem sentir...
Muitas vezes recolho-me na base de falésias enormes. Daquelas que tendem verticalmente para cima. Para um lugar onde, cá de baixo, vejo mãos e braços que me acenam e que se esticam na minha direcção. Membros que eu tento freneticamente agarrar, como se tivesse medo que o meu próprio mar me afogasse. Membros que eu de facto consigo agarrar, sempre com algum critério que às vezes eu próprio desconheço: mais robustos, mais despidos, mais básicos. Membros que penso agarrarem-me suspenso enquanto eu precisar de arranjar forças para eu próprio acabar de subir o que falta. Membros que por vezes me largam sem se preocuparem se caio de costas num colchão de penas ou numa estalagmite de ferro. Se sobrevivo ou me desfaço.
No topo da arriba, passeio no meu bosque. Por entre as minhas árvores. Sobre as minhas folhas. Debaixo dos meus ramos. Ombreio com troncos grossos que o meu corpo não abraça, tropeço nas suas raízes que os meus pés não reconhecem e esgueiro-me na escuridão que as suas copas impedem de ser penetrada brutalmente por qualquer fio de luz. E por onde quer que vá, é sempre à minha clareira que chego. Uma clareira escura. Preta. Onde não há bosque, nem árvores, nem folhas, nem raízes, nem ramos. Só terra. Molhada. Vazia. Infinita. Onde jaz uma sepultura. A sepultura das minhas coisas. A minha sepultura. Onde eu choro e recordo tudo o que enterrei. Onde talvez durma mais leve e mais acompanhado. Onde me (re)visito e me (re)completo.
À noite, quando volto, sei as ruas que dizem para eu percorrer. As ruas que eu não percorro. Atalho pelo caminho maior. Aquele que é estreito e ladeado por imensos edifícios enormes sem janelas. Edifícios sobre os quais eu ando e que cedem sempre ao meu peso. Que colapsam para dentro sob mim. Admiro os cartazes de publicidade, para mim sempre lunarmente brancos. Preenchidos à minha maneira para que me possam absorver para o seu interior, ganhando vida ao sabor do que me apetece. Sigo as vias com sinais proibidos. Não paro nos STOP's. Sigo contra o sentido de prioridade. Ignoro as passadeiras. Simplesmente faço os meus sinais e o meu trânsito. E é assim que chego com segurança, de novo, ao meu quarto. No sítio onde tenho as minhas coisas arrumadas como eu quero. No sítio onde eu próprio me vejo chegar comodamente.
Este é o meu mundo. Este sou eu.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Dizem que se chama plágio

Eu podia escrever sobre "o rio da minha aldeia". Mas já alguém antes de mim escreveu sobre isso.

domingo, janeiro 21, 2007

Livros

Sabe bem pegar num livro novo e começar a abri-lo à nossa maneira. A folhear cada pedaço de papel como nos apetece, a interpretar cada palavra de acordo com a nossa maneira de ser, a sonhar com a história que cada um deles contém. Histórias daquelas que não acabam, que percorrem livros com mais de 500 páginas e que ainda têm a capacidade de saltitar de volume em volume num caminho que se crê que vai sempre em frente.
Um livro deveria ser algo em que só se pega uma vez. Algo que só se larga porque a história chegou ao fim. E aí deveria ir para a prateleira. Para aquela mais alta, onde nunca mais ninguém lhe descansaria a vista em cima. Mas há sempre aquele dia em que, no meio de uma limpeza qualquer, se volta a encarar aquele objecto, já com a capa cheia de pó, com as páginas amarelas de tão velhas e dobradas e gastas de tão viradas. Se calhar é normal perder um pouco de tempo a voltar a olhá-lo, com alguma nostalgia, e reviver mentalmente tudo o que se viveu e sentiu quando se esteve no seu interior. Os pedaços de papel, as palavras e as histórias.
Há quem, arrebatado por essa nostalgia tão inconsciente e animal, se atreva a pegar naquele pedaço de passado e a voltar a lê-lo, mesmo que isso signifique largar um livro novinho que ainda há pouco se começara. E muitas vezes essa saudade dá somente lugar à desilusão por já se conhecer a velha trama de trás para a frente. De se saber como começa e, sobretudo, como acaba. Ou melhor, porque acaba. Descobre-se que aquele objecto já está completamente descoberto. Que não tem mais nada para descobrir. Está lido.
Tenta-se depois voltar ao livro novo, que com tanto cuidado se tinha tentado obter. Mas por capricho do livro, este muitas vezes deixa de abrir, ou se o faz, nunca mais vai contar a mesma história de antes.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Cromossomas

A verdade é que te admiro. Principalmente essa tua capacidade despreocupada com que corres pelos teus caminhos. Apesar de me irritar esse teu "conformismo", invejo-te a articulação para te dares aos outros. De te rodeares por imensas pessoas que conseguem gostar de ti. A sério. Por seres tu.
Só tenho pena por não mostrares interesse por esse teu valor enorme. Que não cultives o carinho que os outros te dão ou que não te trates, a ti e a tudo o que fazes. Temo que vais cair ainda bastantes vezes. Espero que não muitas nem muito altas. Mas tens outra coisa que gostava de ter: um espírito de "sempre-em-pé".

terça-feira, janeiro 09, 2007

És assim

Cepticismo. É esse o maior dos teus problemas e dos teus defeitos. É esse o maior dos teus pecados. É essa tua necessidade de não acreditar nas pessoas... Porque é que o fazes, o continuas a fazer ou não o deixas para trás? Porque é que te permites a essa limitação, a essa corda, a essas correntes tão pesadas, dolorosas e incomodativas? Talvez não mereças quem tens, por mais forte que essa ligação possa ser. Talvez só te falte capacidade para dar valor ou de seres alguma coisa mais parecida com um ser humano.
Podes ter ou não culpa. Não interessa... És assim e não prestas por assim seres. Para ti e para os outros. Esse sofrimento arrastado, corrosivo e rancoroso chega a roçar o doentio... Mas porquê? Aceita as chaves que já te foram entregues no coração, para que possas abrir esse cadeado. É só rodar para a esquerda...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Impressionante

É impressionante a capacidade que a nossa memória auditiva tem para nos fazer viajar no tempo. O que a simples audição de uma voz nos é capaz de trazer à cabeça, mesmo que estejamos de olhos fechados na mais profunda das escuridões. E em tão poucos segundos.
É impressionante a capacidade que a nossa memória olfactiva tem para nos levar para lugares e para junto de pessoas. Locais e pessoas que não vemos há bem mais tempo do que os meros segundos que é preciso para um perfume nos fazer associar tantas ideias.
É impressionante a capacidade que a nossa memória visual tem para que consigamos identificar coisas tão nossas, mesmo que muito mudadas. Olhar para além daquilo que está à nossa frente, juntando pequeninas peças gastas e flashes pouco claros, mas tão iguais como sempre.
É impressionante como estas memórias mais primitivas, mais animais, nos conseguem trazer tanto e tanta coisa. Como nos emergem aqueles pormenores que nos marcam e dos quais raramente nos lembramos: um tom de voz, um perfume ou um flash.

É impressionante a capacidade que a nossa memória cortical tem para que possamos associar as nossas decisões a muito mais para além das nossas memórias primitivas. A possibilidade que nos dá de juntar sentimentos tão mais complexos e característicos da nossa espécie. Coisas que mais nenhum ser sente.
É impressionante a capacidade que esta memória tem para, apesar de mais racional, por vezes se sobrepor a todas as outras. Porque às vezes tem que ser.

Sonhar

Se eu pudesse escolher uma prenda de Natal para nós dois, era isto que eu escolheria: que continuasses sempre a sonhar. Sempre a acreditar nos teus sentimentos. Sem medo. Porque é isso que nos une: tu fazes-me sonhar o meu pensamento e eu faço-te pensar os teus sonhos. É através dessa tua capacidade que atingimos o nosso equilíbrio. Para além disso, gosto muito de ter ver sonhar. E gosto ainda mais quando o fazes com aquele sorriso de criança na cara. Aquele sorriso que diz que tudo é possível...

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Há um ano...

Faz hoje um ano que decidi começar este espaço, tanto para mim mas também (e principalmente) para os outros. Sinto-me feliz por perceber que consigo encarar e levar este meu objectivo, de há tanto tempo, a sério. Faz-me bem ao ego. É verdade que estive também para desistir. Desistir por me faltarem motivos, vontade, fins. Imaginei-lhe conclusão (que não estará nunca esquecida). Mas ainda aqui estou e estarei por mais algum tempo...
Ao longo deste ano, percebi que os meus textos me ajudaram muito, principalmente no sentido de me mostrar aos outros. Sim, porque eu não sou só aquele ser carrancudo e fechado que normalmente todos vêem. Sei que o que escrevi me aproximou de algumas pessoas. Que algumas coisas me fizeram viver o passado. Que outras me fizeram dar um passo no futuro. Sei que não tive medo de ferir susceptibilidades. Sei que não tive medo de dizer que errei. Sei que também devo ter criado expectativas que provavelmente nunca cumprirei. Sei que talvez tenha servido para ajudar, dar um sorriso, estimular 2 minutos de reflexão ou simplesmente passar o tempo. E é por este pequeno retorno, que digo que valeu mesmo a pena.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Um lugar tão meu...

Gosto de me sentar mesmo à beira do paredão e deixar as minhas pernas suspensas sobre a água. Ou então simplesmente reclinar-me sobre um qualquer banco e deixar-me ficar. Este lugar chama-me, a mim e ao meu pensamento. Como se as ideias viessem com as pequenas ondas que se dirigem a mim, vindas de não sei onde. Ideias boas e más. Frequentemente más. Melhor: inquietantes. Arrepia-me sentir aquele vento característico. Aquele vento que é capaz de me atravessar a pele, os músculos, os ossos. Aquele vento que traz com ele aquele cheiro inconfundível a maresia. E que volta a sair. Vai mas não leva com ele os meus fantasmas. Nem ele nem as ondas que antes vinham e que agora se afastam para longe da minha vista. Já sei que o melhor não é esperar que algum destes agentes me ajude a levá-los. Sei que me devo deixar consumir com estas memórias e com as minhas preocupações. Pelo menos enquanto aqui estiver neste lugar que é de todos mas que acaba por ser tão meu. Não tenho medo da melancolia que se me assola. Deixo-a entrar. Enfrento-a. Custa mas alivia...
Quando aqui estou, parece que tudo o que está nas minhas costas deixa de existir. Sou eu e o mar. E tudo o que ele me dá e tudo o que ele não me tira. Já perdi pessoas aqui. Também já comecei a ganhar algumas neste lugar. Tive até o prazer de destruir outras num pequeno canto algures por perto. Será sempre algo demasiado simbólico para que me seja indiferente. Há quem diga que é um cenário perfeito, daqueles de quadros pintados com as mais bonitas cores. Eu não o vejo assim. Vejo-o de cores escuras, abafadas, presas. Um cenário demasiado deprimente. Demasiado revivalista. Odeio-o por gostar dele. Evito-o por precisar dele...
Ao fundo um barco passa no horizonte... Corta-o como me corta neste instante o rodopio que me invade a cabeça. Por hoje chega. Levanto-me e dirijo-me para o mundo nas minhas costas.